Enquanto seu filho adota publicamente um discurso de moderação, Jair Bolsonaro trabalha nos bastidores com um objetivo claro. A prioridade do ex-presidente é eleger aliados ao Senado em outubro. O plano de longo prazo é consolidar, até 2027, uma maioria de senadores dispostos a mover impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
A estratégia eleitoral do PL foi dividida. Bolsonaro ficou responsável por escolher os candidatos do partido ao Senado. O foco na Casa Alta não é por acaso. Com mandatos de oito anos, os senadores eleitos este ano terão poder de votar pautas cruciais por muito tempo. O ex-presidente quer inclusive emplacar familiares, como Michelle e Carlos Bolsonaro.
A escolha dos nomes segue um alinhamento claro. Entre os pré-candidatos do PL, a maioria já defendeu publicamente a saída de ministros do STF. O alvo principal é Alexandre de Moraes, relator de processos contra Bolsonaro. A ideia é que, uma vez no cargo, esses senadores possam "reequilibrar os Poderes", como eles mesmos definem.
O cálculo para uma maioria no Senado
Para entender a movimentação, é preciso olhar para os números. O Senado Federal tem 81 cadeiras. Neste ano, cada estado elegerá dois senadores, totalizando 54 novas vagas. Os outros 27 senadores permanecem com mandato até 2027. O plano bolsonarista é eleger uma leva expressiva de aliados agora.
O partido pretende ter ao menos um candidato ao Senado em quase todos os estados. O cálculo interno é otimista. A direita bolsonarista, somando PL e siglas aliadas, acredita que pode eleger até 35 nomes. Se isso acontecer, o grupo ultrapassaria a marca de 41 senadores em 2027, alcançando a maioria absoluta da Casa.
Ter o controle do Senado significa comandar a mesa diretora e a pauta de votações. Para o grupo bolsonarista, isso abriria caminho para temas hoje travados, como os pedidos de impeachment. O deputado Sanderson, candidato no RS, resume: "A maneira de tentar corrigir os rumos do Brasil era vencermos o Senado". O foco declarado é o STF.
Duas falas, uma mesma estratégia?
Enquanto o pai articula nos bastidores, o senador Flávio Bolsonaro mantém um tom público diferente. Candidato ao Planalto, ele tem evitado o embate direto com o Supremo. A avaliação de seu entorno é que a retórica beligerante de 2022 pesou na derrota. A nova estratégia é mirar o governo Lula e priorizar propostas de governo.
Aliados dizem que Flávio, como filho, quer evitar atritos que possam prejudicar a situação do pai. Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por decisão de Alexandre de Moraes. Apesar da cautela, quando questionado, Flávio critica o STF e defende o impeachment de ministros de forma protocolar. Ele também participou de ato contra Moraes.
Os pré-candidatos ao Senado não veem contradição. Eles entendem que Flávio precisa de uma postura presidencial, enquanto o trabalho "pesado" no Legislativo ficará com eles. A deputada Bia Kicis, que assinou pedidos de impeachment, disse que Flávio defende a medida, mas "tem que agir com cautela, porque ele já é alvo". A divisão de tarefas parece clara.
O discurso dos candidatos no terreno
Na prática, como os postulantes ao Senado tratam o tema? A reportagem conversou com vários nomes. O discurso mais inflamado vem de Eduardo Bolsonaro, que prometeu "chutar para fora esses juízes corruptos". Já outros adotam um tom mais institucional, evitando citar nomes especificamente em entrevistas.
O coronel Hélio Oliveira, do RN, afirma que o impeachment é um instrumento legal, mas evitou mencionar ministros. Marcelo Queiroga, ex-ministro da Saúde, diz que a pauta "não é obsessão". Ele argumenta que não será candidato apenas para isso, mas que processos devem ser abertos se houver indícios de crime de responsabilidade.
Há um consenso de que o debate precisa ser mais amplo. Filipe Barros, candidato no Paraná, diz que o impeachment "é uma pauta, mas é inevitável uma reforma do Judiciário". Para ele, a discussão deve ser sóbria e envolver juristas. O caminho, portanto, é longo. Tudo depende primeiro da conquista das vagas em outubro. O jogo político está apenas começando.
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