A ansiedade começa a tomar conta de alguns setores bolsonaristas. O motivo? A postura mais contida do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em relação à pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro. Embora tenha dito publicamente que o filho do ex-presidente pode contar com ele, Tarcísio evita declarações espontâneas de apoio nas redes sociais. Também não participou de eventos importantes da pré-candidatura, como um almoço com empresários no final do ano passado.
Essa relutância em entrar de cabeça no processo já rendeu até um apelido maldoso nos bastidores. Alguns críticos já chamam o governador de “Tarcísio Garcia”. A referência é direta ao ex-governador Rodrigo Garcia, que ficou em cima do muro na disputa de 2022 e acabou fora do segundo turno. Para essa ala mais aguerrida, se o apoio não vier de forma clara e firme, Tarcísio pode ser visto como um traidor. E, claro, se transformar em um alvo preferencial da artilharia política do grupo.
Do outro lado, aliados do governador pedem calma. Eles argumentam que a pressão é natural, mas que o momento atual ainda não é de campanha eleitoral aberta. O foco de Tarcísio, segundo eles, está totalmente voltado para a gestão do estado de São Paulo. A articulação política com outros partidos, neste instante, seria uma responsabilidade do próprio senador Flávio Bolsonaro, e não do governador.
O timing e as frustrações nos bastidores
A insatisfação não é unânime. Outras vozes dentro do bolsonarismo consideram as críticas prematuras. Eles defendem que cada político tem seu próprio ritmo e calendário. A relação entre Tarcísio e Jair Bolsonaro, na visão desses apoiadores, é de lealdade e respeito. A expectativa geral é que, quando a corrida eleitoral de fato esquentar, o governador paulista entrará de cabeça na campanha do filho do ex-presidente. A lógica por trás disso é puramente política: ninguém quer carregar o estigma de traidor.
Porém, essa demora em se engajar mais abertamente pode ter uma explicação específica. Muitos acreditam que Tarcísio ficou frustrado com a forma como a pré-candidatura de Flávio foi anunciada. A notícia vazou em um portal de notícias, e o senador confirmou tudo pelas redes sociais. Não houve um evento formal combinado com os aliados, um gesto que seria esperado para algo tão importante. O governador, que aguardava definições para 2026, foi pego de surpresa e pode se sentir preterido no processo decisório.
Essa sequência de eventos ajuda a entender a atual resistência. Tarcísio levou três dias para se pronunciar após o anúncio. E mesmo assim, só o fez quando pressionado por jornalistas. Na ocasião, ele listou Flávio entre “outros grandes nomes da oposição”, um apoio considerado tépido por muitos. Durante a coletiva, o governador tentou fugir do assunto várias vezes, sinalizando um desconforto claro com o tema.
A importância estratégica do palanque paulista
O apoio de Tarcísio é considerado fundamental por estrategistas da pré-campanha de Flávio. Não se trata apenas de garantir o palco no estado com o maior colégio eleitoral do país. A figura do governador serve a um propósito narrativo mais amplo. Como Flávio tenta se projetar como uma versão mais moderada do pai, Tarcísio seria o exemplo perfeito de um “bolsonarista light” que deu certo. Sua imagem de gestor técnico e com boa receptividade no centrão é um trunfo valioso.
Recentemente, os caminhos dos dois nem sequer se cruzaram. Tarcísio tirou férias de 17 dias nos Estados Unidos. Na mesma época, Flávio também estava no país, visitando o irmão Eduardo Bolsonaro. Os dois não se encontraram. Em entrevistas recentes, porém, o senador tem se esforçado para acalmar os ânimos. Ele destacou que sua candidatura tem uma vantagem clara: não coloca em risco o controle da direita sobre São Paulo.
A lógica é simples. Se Tarcísio saísse para disputar a Presidência e perdesse, o grupo ficaria sem o Planalto e sem o governo paulista. Flávio afirmou que o governador não perde a reeleição “de jeito nenhum”. Para demonstrar que os laços estão preservados, ele revelou um gesto pessoal. No Natal, teria recebido uma ligação de Tarcísio, com uma mensagem de apoio. Esse sinal privado, para ele, foi suficiente e “muito legal”. A confiança na aliança segue firme, aguardando apenas o momento político correto para se materializar em campanha.
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