As próximas eleições presidenciais no Brasil, em 2026, apresentam um desafio complexo para as grandes plataformas digitais. Elas precisarão navegar entre duas forças distintas. De um lado, existem novas e mais rigorosas regras judiciais brasileiras para combater a desinformação. De outro, há uma tendência global, especialmente vinda dos Estados Unidos, de priorizar a liberdade de expressão e reduzir a moderação de conteúdo.
Meta, X e Google, em diferentes medidas, têm seguido essa orientação de menor interferência. No entanto, o cenário brasileiro exige o cumprimento de obrigações legais específicas. O grande desafio será equilibrar essas diretivas internacionais com as exigências das autoridades locais, algo considerado delicado pelas próprias empresas.
Enquanto isso, o TikTok segue um caminho oposto. A plataforma de origem chinesa está reforçando seus programas de moderação e iniciativas voltadas para a eleição brasileira. Essa divergência de posturas deve definir boa parte do clima digital durante a campanha.
A evolução das regras do jogo no Brasil
Em 2022, a regulação do conteúdo político digital dependia muito de decisões judiciais do Tribunal Superior Eleitoral. A corte também aprovou uma resolução logo após o primeiro turno, acelerando os prazos para remoção de informações falsas. Já nas eleições municipais de 2024, novas normas surgiram, proibindo os deepfakes e exigindo rótulos para conteúdos criados com inteligência artificial.
Agora, para 2026, espera-se um cenário com muito mais desinformação gerada por IA. As regras também avançaram. Uma resolução publicada em março proíbe totalmente conteúdo político com inteligência artificial nas 72 horas antes e 24 horas depois da votação. Chatbots como ChatGPT e Gemini estão proibidos de recomendar votos ou privilegiar candidatos.
Pela primeira vez, as plataformas são obrigadas a apresentar planos detalhados ao TSE, com metas e métricas concretas sobre como vão cumprir as normas. O prazo para envio desses planos é 16 de agosto. Uma das empresas, antecipando um volume recorde de ações judiciais, já aumentou em 30% seu time de advogados externos para lidar com o período eleitoral.
As mudanças internas das plataformas
Enquanto o Brasil cria mais regras, as grandes plataformas globais reduziram algumas medidas de combate à desinformação. Um consultor descreve isso como dois vetores em direções opostas. De um lado, uma abordagem mais liberal das empresas em relação ao discurso online. De outro, as novas regras brasileiras que incentivam mais intervenção. A eleição de 2026 testará essa contradição.
A Meta, por exemplo, anunciou que vai “se livrar” da checagem de fatos em nível global. No Brasil, a empresa ainda mantém parceria com agências de fact-checking, mas reduziu o volume máximo de conteúdos verificados em cerca de 20%. Programas específicos para eleições de 2022 foram descontinuados, como os rótulos que direcionavam para informações do TSE e um chatbot no Instagram.
A empresa manteve, no entanto, a ferramenta Megafone, que envia lembretes com datas e locais de votação. Para conter deepfakes, ela oferece ferramentas para os usuários declararem quando um conteúdo foi gerado por IA. A Meta também assinou um memorando com o TSE, comprometendo-se a remover conteúdos que incitem violência ou desinformem sobre o processo eleitoral.
Ferramentas, anúncios e caminhos distintos
O Google também fez ajustes. Em 2022, o YouTube se comprometeu a remover vídeos que alegassem fraude na eleição de 2018. Para 2026, no entanto, não há o mesmo compromisso em relação a acusações de fraude em 2022. A proibição específica sobre alegações falsas de invasão das urnas eletrônicas foi retirada dos termos de uso.
A empresa manterá seus painéis informativos sobre eleições nos vídeos. Para esta campanha, vai oferecer a ferramenta Likeness ID. Ela permite que uma pessoa pública, como um político, busque por sua aparência em conteúdos gerados por IA. Se encontrar um deepfake, ele pode revisar o material e solicitar a remoção. Em uma mudança importante, o Google deixou de vender anúncios políticos no Brasil desde 2024.
Já o X, sob o comando de Elon Musk, acabou com as equipes internas de checagem. O sistema atual são as “notas da comunidade”, onde os próprios usuários avaliam a veracidade das postagens. Essas notas, porém, não resultam em remoção ou redução na distribuição do conteúdo. Mark Zuckerberg, da Meta, afirmou que sua empresa deve adotar um modelo parecido.
O TikTok, por sua vez, está ampliando suas defesas. Manteve parcerias com verificadores de fatos e se compromete a remover conteúdo falso. A plataforma contratou a Agência Lupa para um trabalho de inteligência pré-eleitoral, mapeando narrativas falsas antes que viralizem. Também fechou acordos para monitorar violência política de gênero e produzir conteúdo político educativo.
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