O Banco Central decidiu abrir um investigação interna para examinar como foi sua própria atuação na fiscalização do Banco Master. O processo vai desde a fase de expansão do banco até sua liquidação, no final do ano passado. A iniciativa partiu do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e está sendo conduzida com discrição pela corregedoria da instituição.
Não existe um prazo rígido para que esse trabalho seja concluído. Embora houvesse uma expectativa de um relatório preliminar ainda em fevereiro, o setor responsável tem autonomia total para levar o tempo que for necessário. A análise pode se estender caso surjam novas informações ou sejam abertos outros procedimentos.
O objetivo central é trazer transparência para as ações do próprio BC neste caso complexo. A ideia é prestar contas à sociedade e usar essa experiência para melhorar os mecanismos de fiscalização no futuro. É uma espécie de “autópsia” do caso, uma prática mais comum na iniciativa privada, focada em verificar a governança e os processos internos.
Mudanças na equipe de fiscalização
Pouco depois da liquidação do Banco Master, houve mudanças significativas na equipe de supervisão do BC. O então diretor de Fiscalização, Paulo Souza, foi afastado da função que exercia como chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. Recentemente, já fora do posto há dois meses, ele pediu para ser desligado do cargo comissionado que ocupava.
Relatos internos apontam que lançamentos contábeis no balanço do Master foram motivo de discordâncias entre Souza e Galípolo. O ex-direitor atuou na fiscalização entre 2019 e 2023 e continuou supervisionando diversas instituições, incluindo o Master, mesmo após receber propostas do setor privado. Até o momento, não há acusações formais contra ele.
Uma trajetória semelhante foi vivida por Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Ele também pediu para deixar o cargo comissionado. Em um depoimento, o atual diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, mencionou o nome de Santana ao comentar um documento que sinalizou problemas nos ativos do Master adquiridos pelo BRB.
Os riscos e o contexto da investigação
A decisão de investigar a si mesmo, embora buscando transparência, traz riscos internos para o Banco Central. A apuração envolve servidores com décadas de carreira e boa reputação entre os colegas, o que pode causar desgaste e um clima de apreensão. Esse foi um fator considerado para que a iniciativa partisse da própria cúpula da autarquia.
Outro ponto de atenção é o uso que a defesa do empresário Daniel Vorcaro pode fazer das conclusões da sindicância. Elas poderiam ser usadas para contestar decisões tomadas ao longo de todo o processo. Ainda assim, Galípolo optou por não se omitir e seguir adiante com a análise detalhada.
A investigação só começou após a liquidação do banco para evitar qualquer especulação sobre interferência no trabalho técnico que ainda estava em andamento. Paralelamente, o Tribunal de Contas da União também analisa a atuação do BC no caso. A tendência, segundo acompanhantes, é de um parecer favorável ao regulador, encerrando um episódio que gerou atritos.
O alcance do prejuízo e as lições
Os prejuízos do caso Master se estendem para muito além da instituição liquidada. Envolvem recursos do Fundo Garantidor de Créditos, impactos profundos no BRB, investimentos de fundos de pensão e aplicações de empresas públicas e privadas. Enquanto isso, as investigações seguem para apurar todas as responsabilidades pelo colapso.
A análise preliminar de auditoria no TCU indicou que não houve inação ou falhas no monitoramento contínuo do Banco Central em atos realizados desde meados de 2024. Caso não surjam novos elementos, o relator deve seguir esse entendimento técnico. O episódio serve como um grande aprendizado para os mecanismos de controle do sistema financeiro.
A Associação Nacional dos Auditores do Banco Central declarou confiar no trabalho técnico e colegiado da instituição. A entidade ressaltou que os servidores seguem processos formais e documentados, com mecanismos permanentes de controle interno e auditoria. Eventuais responsabilizações, segundo a associação, devem ocorrer nos foros competentes, com base em provas concretas.
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