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As rádios piratas de Eduardo Cunha

Eduardo Cunha, o político que conduziu o impeachment de Dilma Rousseff e depois foi preso, está de volta ao jogo. Sem mandato desde 2016 e com o patrimônio bloqueado, ele agora mira uma cadeira no Congresso. Para isso, está construindo algo poderoso no interior de Minas Gerais: uma rede de rádios.

Ele viaja de cidade em cidade, participa de inaugurações e concede entrevistas. Anuncia a chegada da Rede 89 Maravilha, que se apresenta como “a rádio de todas as igrejas”. São mais de vinte emissoras, espalhadas de Belo Horizonte a Teófilo Otoni. Há, porém, um detalhe crucial que levanta dúvidas.

Nos documentos oficiais, o nome de Eduardo Cunha não aparece como dono de nenhuma dessas estações. Nem nos registros da Receita Federal, nem nos cadastros de radiodifusão. A pergunta que fica é: como alguém monta uma rede de comunicação sem ser seu proprietário formal?

Quem é o comprador das rádios?

Eduardo Cunha foi uma das figuras mais influentes e polêmicas da política nacional. Como presidente da Câmara, foi peça central no processo que afastou a presidente Dilma Rousseff. Pouco depois, no entanto, a roda virou. Ele teve o mandato cassado, foi preso e condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Apesar das condenações e de ser considerado inelegível pela Lei da Ficha Limpa, ele busca um retorno. Transferiu seu domicílio eleitoral para Minas Gerais e se registrou como candidato a deputado federal. É nesse contexto que as rádios ganham um papel estratégico fundamental para sua campanha.

As emissoras funcionam como uma pré-campanha permanente. A rede se chama 89 Maravilha e a maioria opera na frequência 89 FM. Curiosamente, seu número de urna é 1089. Assim, diariamente, os ouvintes são expostos aos dígitos que ele pedirá nas eleições.

Uma rede construída com pressa

A expansão da rede foi rápida e abrangeu pelo menos 24 cidades mineiras. A velocidade da operação chamou a atenção de autoridades. A Polícia Federal investiga se Cunha direcionou milhões em emendas parlamentares para municípios onde comprava ou instalava rádios.

Um deputado já protocolou uma representação na Justiça Eleitoral, alegando abuso de poder econômico. As investigações, porém, não respondem a uma questão central desta história. Se Eduardo Cunha não é o dono no papel, em nome de quem estão registradas essas empresas?

A primeira camada dessa estrutura aponta para um nome familiar: Daniel Cardoso de Sá, genro de Cunha. Ele aparece como sócio ou administrador de várias emissoras da rede. Muitas foram constituídas justamente entre 2023 e 2025, período que antecede a eleição.

A rede também se estende ao Rio de Janeiro, com emissoras no litoral. No topo, há holdings que completam o desenho societário. As datas mostram uma montagem acelerada, sincronizada com os planos eleitorais do ex-deputado.

A lacuna entre o discurso e os registros

Em algumas cidades, a situação é ainda mais curiosa. Em João Pinheiro, por exemplo, Cunha anunciou publicamente a compra de duas rádios. Ele discursou, falou sobre mudanças de frequência e as integrou à sua rede. Os jornais locais noticiaram a aquisição.

Contudo, nos registros oficiais consultados meses depois, as rádios continuavam nas mãos da mesma família de sempre. Os proprietários são empresários com carreira política própria e trânsito em Brasília. Nos documentos, não há sinal de transferência para Eduardo Cunha.

Essa desconexão se repete na declaração de bens que ele entregou à Justiça Eleitoral. O patrimônio declarado é majoritariamente um valor bloqueado judicialmente. O restante são bens como um carro antigo e frações de imóveis. Nenhuma emissora de rádio é listada.

Publicamente, ele se apresenta como proprietário e fala em expandir os negócios. À Justiça, declara não ter nenhuma. Surge então outra pergunta inevitável. Com que recursos se financia a aquisição de mais de vinte estações de rádio?

O dinheiro necessário para uma operação dessa escala não aparece em sua declaração. A rede cresce, carrega seu nome e seu número eleitoral. Os meios que possibilitaram sua construção, no entanto, permanecem fora dos registros oficiais. O caso segue aguardando decisões das autoridades.

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