A cidade de São Paulo enfrenta uma semana conturbada no transporte sobre trilhos. Três importantes linhas de trem estão paradas por conta de uma greve dos trabalhadores da CPTM. A paralisação começou numa terça-feira, dia 4 de agosto, e ainda não tem data para terminar. Os funcionários protestam contra o processo de privatização que atinge suas carreiras.
Os trilhos da capital paulista, no entanto, já vinham dando sinais de alerta bem antes da greve. Nas semanas anteriores, uma sequência de incidentes perturbou a rotina de milhares de passageiros. Esses problemas estão diretamente ligados à mudança na gestão das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade.
No final de julho, a operação dessas linhas passou integralmente para a empresa privada Trivia Trens. A transição, longe de ser tranquila, foi marcada por falhas operacionais e um grave acidente. Esse cenário de insegurança acabou sendo o estopim para a mobilização dos trabalhadores da estatal, que decidiram cruzar os braços.
Um incêndio que acendeu o alerta
O caso mais grave aconteceu no dia 23 de julho, durante a primeira semana de operação exclusiva da Trivia. Um vagão da Linha 12-Safira pegou fogo após um curto-circuito, liberando chamas e fumaça que assustaram os passageiros. Felizmente, ninguém se feriu no incidente, mas o vagão ficou completamente carbonizado.
Nos bastidores, funcionários da CPTM que participaram da transição fizeram uma denúncia séria. Eles afirmam que a Trivia havia sido alertada sobre problemas no sistema elétrico antes do acidente. Além disso, os novos profissionais da concessionária não estariam totalmente preparados para lidar com essas emergências.
No dia do incêndio, um manobrador da estatal teria comunicado os defeitos na rede via rádio. A resposta da central de controle da Trivia, segundo relatos, foi lenta. Quem socorreu os passageiros e os retirou do vagão em chamas foram os próprios funcionários da CPTM e de uma empresa terceirizada.
Falhas que vão além de um caso isolado
O incêndio não foi um problema pontual, mas sim o ápice de uma série de falhas. Técnicos e maquinistas ouvidos nos últimos meses apontam que a nova operadora aumentou a quantidade de trens em circulação. Essa mudança, no entanto, não foi acompanhada por melhorias na infraestrutura energética.
O maior número de composições desgasta mais o sistema. Sem um reforço nas subestações de energia, o risco de curtos-circuitos cresce consideravelmente. A Trivia, quando questionada sobre essa relação, não se manifestou sobre o assunto. A empresa apenas destacou seus investimentos em treinamento para a equipe.
A concessionária afirmou que seus mais de dois mil colaboradores receberam capacitação intensiva. Foram mais de mil e trezentas horas de treinamentos práticos e teóricos, segundo a nota oficial. A CPTM também reforçou que o processo de preparação das equipes foi gradual e supervisionado por seus técnicos.
Treinamento e equipes sob questionamento
Os profissionais que atuam nas linhas, porém, veem deficiências na formação oferecida. Eles alegam que os cursos atuais ficam aquém dos padrões anteriores à concessão. Novos maquinistas estariam sendo colocados para operar sem o devido acompanhamento de monitores experientes.
Aumentos na jornada de trabalho também são criticados, pois elevariam o risco de erros humanos. Essas condições teriam gerado diversos incidentes ainda durante o período de transição. Passageiros relataram portas abrindo do lado errado, trens passando direto pelas estações e até veículos avançando o sinal vermelho.
Outra preocupação é a redução nas equipes de apoio terceirizadas. Com menos pessoal, situações que exigem assistência imediata ficam sem resposta. Casos de mal-estar dentro dos vagões ou necessidade de ajuda no embarque de pessoas com dificuldade de locomoção são citados como exemplos.
Uma história de descarrilamentos e investigações
Os problemas nas linhas privatizadas não são novidade na capital paulista. Um levantamento mostrou um aumento significativo de falhas nos sistemas geridos por concessionárias. Na Linha 7-Rubi, operada pela TIC Trens, as ocorrências saltaram de 3 para 21 em um ano.
Descarrilamentos se tornaram especialmente recorrentes. A empresa ViaMobilidade, que opera outras linhas desde 2021, já registrou catorze casos desse tipo. Em comparação, as linhas sob gestão da CPTM tiveram apenas três ocorrências no mesmo período. O padrão preocupa autoridades e usuários.
O Ministério Público já instaurou inquéritos civis para investigar as concessões. Uma promotora destacou que, em apenas três dias de operação da Trivia, houve sete falhas graves. As investigações apuram possíveis irregularidades nos processos e a qualidade do serviço prestado aos passageiros.
O contexto político das privatizações
A onda de privatizações virou um desafio para o governador Tarcísio de Freitas. Além dos transtornos nos trens, sua gestão é cobrada por acidentes em outras empresas estatais vendidas, como a Sabesp. Rompimentos de tubulações e reservatórios causaram mortes e desabrigados em diferentes cidades.
Tarcísio fez das concessões à iniciativa privada uma marca de seu governo. O leilão das linhas de trem foi celebrado com direito a marteladas na B3 e aplausos de aliados. Diante dos acidentes recentes, no entanto, o tom mudou. O governador classificou as falhas como inaceitáveis e até ameaçou romper contratos.
A solução encontrada pela agência reguladora Artesp foi devolver a operação das linhas problemáticas à CPTM. Essa decisão, porém, acirra a disputa entre o governo e os sindicatos. A estatal já havia proposto suspender contratos de quase quinhentos funcionários, medida rejeitada pelos trabalhadores.
O futuro desses profissionais concursados segue incerto. A greve atual é um reflexo desse clima de insegurança. Enquanto isso, o passageiro fica no meio do caminho, entre a expectativa de um serviço melhor e a realidade de falhas constantes. A confiança no transporte sobre trilhos precisa ser reconstruída.
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