O ano começou com mais um reajuste no bolso dos argentinos que dependem do transporte público. Na Região Metropolitana de Buenos Aires, as passagens de ônibus, metrô e do Premetro, um sistema sobre trilhos, ficaram 4,5% mais caras em janeiro. Quem usa o cartão Sube, obrigatório para embarcar, sentiu imediatamente o impacto no orçamento doméstico.
Esse aumento não foi uma decisão isolada. Ele segue uma fórmula automática estabelecida em 2024, que repassa a inflação do mês anterior e soma mais 2%. O Ministério dos Transportes justificou a medida, afirmando que os recursos são necessários para manter a regularidade e a qualidade dos serviços. A conta, claro, ficou para o passageiro.
Enquanto isso, nos altos escalões do governo, a situação financeira tomou um rumo diferente. Depois de mais de um ano com salários congelados, ministros, secretários e subsecretários receberam uma recomposição salarial. O ajuste equipara seus vencimentos aos reajustes acumulados pelos servidores públicos entre 2024 e 2025.
A decisão foi publicada em decreto e vinculada aos indicadores econômicos. O texto destaca os 22 meses de superávit fiscal e a queda da inflação como fatores que permitem a atualização. No entanto, a norma traz um freio automático: se houver déficit fiscal acumulado, os salários serão congelados novamente, sem necessidade de um novo aviso.
É importante notar que o aumento não vale para o presidente Javier Milei e sua vice, Victoria Villarruel. O governo defende a medida como um reconhecimento da estabilidade macroeconômica conquistada. Para as autoridades, os números recentes mostram que as políticas adotadas estão corrigindo desequilíbrios históricos.
Esse cenário de ajustes no transporte e recomposição salarial para poucos acontece em meio a uma crise industrial profunda. Uma pesquisa da União Industrial Argentina com mais de 700 empresas pintou um quadro preocupante. Em outubro, uma em cada cinco indústrias reduziu seu quadro de funcionários.
O fechamento de empresas acelerou drasticamente desde o início do governo atual. São mais de 19 mil estabelecimentos que encerraram as portas, uma média de 30 por dia. Isso resultou na perda de mais de 276 mil empregos, sendo 55 mil somente no setor industrial. Os ramos têxtil, metalúrgico e de calçados foram os mais castigados.
A principal queixa dos empresários é a queda brutal na demanda interna, que recuou quase 48%. Metade das empresas consultadas admitiu dificuldade para pagar salários, fornecedores ou impostos. A crise parece se aprofundar, sem sinais claros de uma recuperação à vista.
Diante dos números, o governo mantém sua defesa pela abertura econômica. A visão oficial é que a falência de alguns setores é um efeito da maior competitividade dos produtos importados. A tese é que não há perda líquida de empregos, mas uma migração de trabalhadores para setores considerados mais produtivos.
Entretanto, análises de centros de estudo econômicos locais contestam essa visão. Eles argumentam que as reformas implementadas não geraram novas vagas em volume suficiente. Na prática, teriam apenas facilitado o processo de demissões, agravando o quadro social. O debate sobre os rumos da economia argentina segue acalorado, com cada número divulgado alimentando uma visão diferente do futuro.
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