Arcebispo de Fortaleza convoca pacto contra o feminicídio e denuncia “uma das chagas mais dolorosas da sociedade”
Você sabe aquela história de Jesus com a mulher samaritana, que a gente ouve na igreja? Ela tem um detalhe simples, mas poderoso: ele a tratou com dignidade, conversou com ela de igual para igual. Esse gesto, à primeira vista pequeno, quebrava todas as regras da época. Hoje, esse mesmo ensinamento ressoa com uma urgência triste. Nos fala sobre respeito, sobre ver o outro não como posse, mas como pessoa. Infelizmente, essa lição parece distante da realidade de muitas mulheres.
O arcebispo de Fortaleza, Dom Gregório Paixão, trouxe à tona essa conexão em uma reflexão recente. Ele usou justamente o evangelho do encontro com a samaritana para fazer um apelo grave e necessário. O assunto central é o combate ao feminicídio, uma violência que tira vidas todos os dias. A fala dele não ficou apenas no plano da espiritualidade. Foi um chamado concreto para olharmos para uma chaga social que machuca a todos.
A mensagem parte de um princípio cristão, mas convoca toda a sociedade. A ideia é que a transformação precisa começar em cada um de nós, na forma como nos relacionamos. Precisamos questionar aqueles pequenos gestos de controle, aquelas palavras que diminuem. A violência raramente começa com um golpe físico; ela muitas vezes nasce em atitudes de dominação que vão se tornando comuns. Romper com isso é o primeiro passo.
Um alerta que vem de longe
O papa também tem feito eco a essa preocupação. Em um pronunciamento recente, ele destacou a necessidade de mudarmos relações baseadas no poder sobre o outro. Esse desejo de dominar, segundo ele, é um veneno silencioso. Esse veneno, quando se espalha, frequentemente desemboca em agressão física. E o ponto mais extremo e cruel dessa cadeia é justamente o feminicídio.
Os números mostram a dimensão do problema de forma fria e assustadora. O ano passado foi o mais violento para as mulheres no Brasil em tempos recentes. Mais de mil e quatrocentas vidas foram perdidas, o que dá uma média de quatro mortes por dia. São mães, filhas, amigas, colegas de trabalho. No Ceará, o estado contabilizou 47 casos. Só no mês de fevereiro, três mulheres foram assassinadas.
Esses dados não são apenas estatísticas. Cada um representa uma história interrompida, uma família destruída, uma comunidade que chora. Eles mostram que a violência contra a mulher não é um problema de “lá”. É um problema da nossa rua, do nosso bairro, da nossa cidade. Ignorar esses números é compactuar com uma cultura que ainda trata vidas como descartáveis.
O convite para um pacto pela vida
Diante de um cenário tão duro, o que pode ser feito? Dom Gregório foi direto: precisamos de um pacto social. Isso significa que a responsabilidade não é só das autoridades. A igreja, o poder público, as empresas, as escolas e cada cidadão têm um papel. O primeiro compromisso é não naturalizar a violência. Nenhum xingamento, nenhum controle sobre as amizades, nenhuma agressão pode ser vista como “normal”.
O segundo ponto é a educação. Educar para o respeito desde a infância, mostrando que meninos e meninas são igualmente valiosos. É também sobre ter coragem de denunciar. Muitas vezes, vemos situações de abuso e ficamos em silêncio. Denunciar é proteger. Pode ser anonimamente, através dos canais disponíveis. É um ato de cuidado com a vida daquela mulher.
Por fim, promover relações saudáveis. Relações onde o diálogo substitui o grito, onde o acordo substitui a imposição, onde o cuidado substitui a posse. A espiritualidade da Quaresma, tempo de reflexão, nos convida justamente a essa conversão. Não apenas uma mudança interior, mas uma transformação prática na maneira como tratamos uns aos outros. A vida, em sua plenitude, é o maior dom. Cuidar dela, em especial das mulheres, é um dever de todos.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.