Aposentar o nome, não a rotina. Essa parece ser a nova realidade para milhões de brasileiros. A imagem tradicional da aposentadoria, com descanso e tempo livre, está ficando para trás. Cada vez mais, pessoas com mais de 60 anos optam por permanecer ou voltar ao mercado de trabalho. Os motivos são os mais variados, mas a necessidade financeira aparece com força. O salário da previdência, para muitos, não é mais suficiente para fechar as contas do mês.
Os números confirmam essa mudança de comportamento. Em 2024, um em cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais estava trabalhando. Esse é o maior nível de ocupação já registrado para essa faixa etária. A diferença entre homens e mulheres ainda é grande: 34% dos homens idosos estão ocupados, contra quase 17% das mulheres. A decisão de continuar na ativa vai muito além de uma simples vontade.
Para a grande maioria, é uma questão de sobrevivência. Pesquisas mostram que cerca de 60% dos aposentados continuam trabalhando. O principal motivo, citado por 63% deles, é complementar a renda. Quase metade afirma que o valor do benefício não mantém o padrão de vida que tinham antes. O custo de vida alto e novas responsabilidades familiares tornam o trabalho uma necessidade.
O peso das contas no fim do mês
A história de Deusdédit ilustra bem essa pressão. Aos 70 anos, ele se aposentou como fiscal de obras, mas nunca parou. Acorda às 4h, pega dois ônibus e metrô e segue na mesma construtora. Ele diz que o salário da aposentadoria é apenas uma ajuda. Para ele, trabalhar é essencial para reforçar o orçamento doméstico e garantir o sustento da casa.
Sua esposa, de 66 anos, não tem direito à aposentadoria. Ele descobriu, com frustração, que sua própria renda impede que ela receba o Benefício de Prestação Continuada. Esse tipo de situação coloca muitas famílias em um dilema complexo. O trabalho, mesmo estressante, se torna a única tábua de salvação para equilibrar as finanças.
Ele supervisiona os acabamentos finais de um prédio com 150 apartamentos. Apesar de não exigir esforço físico pesado, a função traz sua dose de desgaste. Mesmo assim, a perspectiva é seguir enquanto a saúde permitir. Esse sentimento é compartilhado por muitos que veem no trabalho uma forma de manter a independência e a dignidade.
As responsabilidades que não se aposentam
Para Maria Aparecida, conhecida como Cida, a aposentadoria também não foi um ponto final. Ela se aposentou por idade, recebendo um salário mínimo, após anos de trabalho informal como diarista. A renda, porém, logo se mostrou insuficiente. A vida trouxe desafios pesados: a filha mais velha faleceu, deixando uma neta pequena, e o ex-marido ficou acamado após vários AVCs.
A aposentadoria do ex-marido paga apenas uma cuidadora em meio período. A neta precisa de acompanhamento psicológico. Cida, que tem diabetes e problemas vasculares, cuida de todos com ajuda da família. Diante desse cenário, ela voltou a trabalhar como babá para a mesma família. Ela resume a realidade de forma crua: hoje em dia não dá para viver só com aposentadoria.
Ela não sabe quando poderá parar. A história de Cida mostra como eventos inesperados podem comprometer totalmente um orçamento já apertado. A aposentadoria por idade, muitas vezes no valor mínimo, não oferece rede de segurança para imprevistos dessa magnitude. O trabalho contínuo vira uma extensão natural da luta pela vida.
Além da necessidade financeira
É claro que o dinheiro não é o único motivo. Para muitos, trabalhar é uma questão de bem-estar mental e realização pessoal. A contadora Mônica, de 58 anos, se aposentou mas permaneceu no mesmo emprego. Ela acredita que parar não faz sentido para ela. Ela observa amigas que, após se aposentar, começaram a apresentar sinais de estresse e depressão.
Ela mantém um estilo de vida ativo, é motoqueira e viaja longas distâncias. Trabalhar, para ela, é parte integrante de se manter saudável e conectada com o mundo. A decisão de continuar, porém, deve ser tomada com cuidado. É preciso avaliar o impacto no imposto de renda e até em benefícios como planos de saúde, que podem ter regras específicas.
A legislação permite que aposentados trabalhem com carteira assinada, mantendo todos os direitos trabalhistas. A exceção é a aposentadoria por invalidez, que pode ser suspensa. Quem volta ao mercado continua contribuindo para o INSS, mas não tem direito a um novo cálculo do benefício. É uma contribuição solidária para o sistema.
O significado do trabalho na terceira idade
O caminhoneiro Lourival, de 84 anos, é um exemplo extremo dessa vocação. Aposentado há mais de duas décadas, nunca deixou a estrada. Ele diz que seu espírito não gosta de ficar parado. Parte de sua renda é destinada a um projeto social da esposa, que ajuda comunidades carentes. Para ele, a sensação de ser útil traz uma felicidade única.
Sua rotina, no entanto, não é fácil. Ele já foi assaltado sete vezes e até sequestrado com uma carga valiosa. O perigo é uma realidade, mas ele segue adiante. Esse sentimento de propósito e a capacidade de ajudar outros dão um significado profundo ao seu trabalho. É mais do que uma ocupação; é uma razão para se levantar todos os dias.
O metalúrgico Euclécio, de 75 anos, também busca ocupar a mente. Aposentado por insalubridade aos 46 anos, seguiu na empresa da família até sofrer um infarto. Mesmo depois disso, continuou por mais dois anos. Hoje, vai ao local ocasionalmente para orientar os mais jovens. A aposentadoria dele não cobre as despesas da casa, especialmente com o tratamento de saúde da esposa.
A jornalista Regina, de 63 anos, se aposentou no ano passado, mas segue à frente de sua agência de comunicação. Ela trabalha porque quer, não por necessidade. Além da empresa, faz atendimentos em terapias alternativas e acaba de prestar o Enem para cursar Filosofia. Ela define sua vida como divertida e animada, sempre em movimento e aberta a aprender.
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