Na noite de Natal, enquanto muitos preparavam a ceia ou brindavam com a família, uma notícia cortou o silêncio festivo. Um alerta no celular trouxe a informação dura: após 25 dias internada, Tainara Souza Santos, de 31 anos, não resistiu aos ferimentos. Ela foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro pelo ex-companheiro. Antes de ser apenas mais uma vítima, ela era uma vida inteira. Mãe de dois filhos pequenos, de 7 e 12 anos, trabalhava no comércio eletrônico e criava as crianças sozinha. Sua história foi interrompida pela violência de um homem que, segundo a acusação, não aceitou o fim do relacionamento.
A imagem que circulou após sua morte mostra uma mulher jovem, sorridente, sobre os trilhos de um trem. É difícil imaginar que aquele seria o retrato escolhido para representar seu fim precoce. Dias antes, sua mãe, dona Lúcia, dava entrevistas cheias de esperança. Prometia ser “as pernas” da filha, que teve ambos os membros amputados após o atropelamento. Em vídeos nas redes sociais, ela relatava pequenos sinais de recuperação. Tainara havia aberto os olhos, reconhecendo a presença materna. A esperança, porém, esvaiu-se na véspera do Natal. A dor da perda agora se transforma em um pedido único e urgente: justiça.
Este caso choca pela brutalidade, mas não surpreende pelo padrão. A violência que culmina no feminicídio raramente é um episódio isolado. Ela é o ponto final de uma escalada. Antes do golpe fatal, há uma sucessão de atos que vão minando a vida da mulher: o controle, a humilhação, as ameaças. É uma morte em vida, lenta e progressiva. Muitas vezes, esse processo é testemunhado e silenciado por pessoas ao redor. Parentes e amigos que percebem os abusos, mas optam por não se intrometer. A sociedade, como um todo, frequentemente minimiza esses sinais quando ainda há tempo de agir.
A Estrutura por Trás do Crime
O feminicídio não é um desvio de caráter isolado. É a expressão mais extrema de uma violência estrutural contra as mulheres. Essa violência não escolhe classe social, raça ou ideologia. Pode vir de qualquer homem, inclusive daqueles que, em público, se apresentam como aliados da causa feminista. Na vida privada, esses mesmos homens podem exercer controle, corroer a autoestima e usar o medo como ferramenta de dominação sobre parceiras e ex-companheiras. A desconexão entre o discurso público e a prática íntima é um dos aspectos mais perversos desse problema.
Há uma anedota poderosa da escritora Margaret Atwood. Nos anos 80, ela perguntou a um amigo por que os homens se sentiam ameaçados pelas mulheres. A resposta foi: eles temem que as mulheres riam deles. Quando fez a pergunta inversa a um grupo de universitárias, a resposta foi radicalmente diferente: elas temiam que os homens as matassem. Esse contraste revela a assimetria fundamental. De um lado, o medo do ridículo. Do outro, o medo pela própria existência. É um abismo que explica a urgência do tema.
A tolerância social com formas “menores” de violência é o terreno que alimenta as tragédias. Piadas misóginas, desqualificação de sentimentos, controle sobre amizades e roupas, ciúmes excessivos. Tudo isso é parte da mesma teia. Quando normalizamos esses comportamentos, criamos um ambiente onde a agressão física parece um passo natural, ainda que condenável. Romper esse ciclo exige que todos, não apenas as mulheres, reconheçam e contestem a cultura que permite a escalada. É uma responsabilidade coletiva.
O Silêncio que Precede a Tragédia
Muitas vezes, o caminho até o crime é pavimentado pelo silêncio. Amigos que veem o parceiro gritando com a mulher em uma festa e fingem não ouvir. Familiares que notam o isolamento progressivo da vítima, mas evitam perguntas diretas. Colegas de trabalho que desconfiam das desculpas para as faltas, mas temem invadir a privacidade. Esse pacto de não-interferência é mortal. Ele isola ainda mais a vítima e dá ao agressor a sensação de impunidade. A mensagem que ela recebe é clara: ninguém vai ajudá-la.
A dor de dona Lúcia, agora, é a de milhares de mães, pais, filhos e amigos. É a dor de quem viu a luta diária e acreditou na recuperação. Sua coragem em usar as redes sociais para narrar o calvário da filha iluminou um caso que poderia ser apenas mais um número. Mostrou a face real por trás da estatística. Tainara não era um dado. Era uma mulher que amava, trabalhava, criava seus filhos e tinha planos. Planos que foram obliterados por uma decisão violenta de outro ser humano.
A justiça, agora, é o mínimo necessário. Processar e punir o agressor é fundamental. Mais fundamental ainda, porém, é criar uma sociedade onde as mulheres não precisem viver com medo. Onde o ciúme não seja confundido com amor. Onde o controle não seja visto como proteção. Onde uma briga de casal não termine nas páginas policiais. A morte de Tainara na véspera do Natal é um lembrete sombrio. Enquanto a violência de gênero for tratada como “problema das mulheres”, não haverá trégua. A mudança precisa começar muito antes, nos gestos mais sutis do dia a dia.
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