Há alguns anos, documentos oficiais traziam um alerta preocupante. Relatórios da Agência Brasileira de Inteligência apontavam um fenômeno em ascensão no país. Entre 2019 e 2020, os movimentos neonazistas eram vistas como a ameaça com maior potencial de crescimento.
Esses dados, antes mantidos sob sigilo, vieram à tona após uma longa disputa judicial. Eles traçam um mapa detalhado das correntes extremistas que atuavam no Brasil naquele período. O cenário já indicava uma mudança no perfil das ameaças à segurança pública.
Os analistas destacavam que ataques inspirados por ideologias radicais, não apenas de caráter religioso, ganhavam espaço. Tragédias como o massacre de Suzano, em março de 2019, eram citadas como exemplo desse novo padrão. A violência começava a ser instrumentalizada por grupos com uma visão radicalizada do mundo.
O fortalecimento da extrema direita
Os documentos são claros ao mencionar o crescimento específico do ultranacionalismo e do neonazismo. Em 2019, esses movimentos se fortaleceram não apenas aqui, mas em diversos países. O aumento dos fluxos migratórios na Europa servia de combustível para discursos de ódio e ações violentas no exterior.
Essa onda internacional influenciava a reorganização de células dentro do Brasil. Nomes como Crew 38, Hammerskin Nation e Combat 18 apareciam nos relatórios. Esses grupos começaram a adotar medidas de segurança mais complexas para dificultar o trabalho das forças de ordem.
A Nova Resistência era citada como um movimento com representação em vinte estados. Os relatórios estimavam a existência de pelo menos uma centena de membros ativos. A defesa de uma "revolução armada" como resistência legítima era um ponto de atenção constante para os analistas.
A radicalização no ambiente digital
A internet se consolidava como o principal campo de recrutamento e propagação dessas ideologias. Fóruns online e partes menos acessíveis da web viraram terreno fértil. Jovens, principalmente homens com histórico de rejeição e problemas familiares, eram o alvo principal.
Nesses espaços, discursos de ódio contra negros, mulheres, homossexuais e outras minorias se misturavam. Havia apologia ao nazismo e à cultura dos chamados "incels", ou celibatários involuntários. Esse caldo ideológico difuso muitas vezes culminava em ameaças concretas de violência.
Após o ataque em Suzano, por exemplo, ameaças similares se espalharam por quase todos os estados. Foram registrados cerca de oitenta incidentes, a maioria resolvida pelas polícias locais. O caso mostrou como a retórica online podia inspirar ações no mundo real.
A ameaça do ecoterrorismo
Além do extremismo de cunho racial e nacionalista, os relatórios dedicavam atenção ao ecoextremismo. A célula Sociedade Secreta Silvestre (SSS) era apontada como a principal expoente dessa corrente no Brasil. O grupo era conhecido por comunicados que reivindicavam ataques ou faziam ameaças.
Em janeiro de 2019, três suspeitos ligados à SSS foram detidos em Goiás. Eles eram investigados por uma tentativa de ataque a um santuário em Brasília no final de 2018. As ameaças também se estendiam a autoridades públicas, incluindo o então presidente eleito.
A célula ainda reivindicou o incêndio de viaturas em uma unidade de conservação federal. Novas ameaças contra ministros foram feitas, inclusive com menção ao uso de toxinas biológicas. O grupo também ameaçou mortes contra praticantes de ecoturismo em áreas específicas.
O caminho até a transparência
Acesso a esses documentos só foi possível depois de uma batalha judicial que durou seis anos. A ação buscava garantir que informações públicas, cujo prazo de sigilo já havia expirado, fossem de fato liberadas. A resistência de alguns órgãos foi um grande obstáculo.
Em 2023, a causa sofreu uma derrota em primeira instância. A justiça aceitou o argumento de que a própria agência poderia decidir o que divulgar. Essa decisão, no entanto, foi revertida em maio de 2025 por um tribunal regional federal.
A nova decisão estabeleceu uma jurisprudência importante ao reafirmar que nenhum órgão está acima da Lei de Acesso à Informação. O entendimento cria um precedente para cobrar transparência de outras instituições que ainda resistem. O caso reforça que a publicidade é a regra, e o sigilo uma exceção com prazo determinado.
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