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A verdade sobre Epstein nunca foi segredo

Há dois anos escrevo sobre o universo das mulheres. É inevitável tocar em histórias de homens influentes e mulheres tratadas como descartáveis. São relatos sobre um mundo que protege predadores e pune quem sofre a violência.

A violência contra a mulher raramente começa com agressão física. Ela nasce em um silêncio conivente, em um olhar que ignora. Cresce em pequenos desrespeitos que a sociedade normaliza. Muitas vezes, o primeiro golpe é a indiferença.

Os chamados “arquivos” de Jeffrey Epstein não são apenas um choque. Eles são a versão burocrática e fria de tudo que as mulheres narram há séculos. São listas, nomes, registros de voos e convites. Documentos que agora fingem revelar uma verdade sempre exposta.

A diferença é brutal e simples. Quando uma mulher fala, chamam de “acusação”. Quando a papelada de um homem vaza, vira “revelação”. Os arquivos não criam o horror. Eles apenas confirmam o que foi sistematicamente ignorado.

Sempre existiu um sistema de caça. Uma engrenagem que transforma corpos femininos em moeda de troca. Um clube fechado onde homens poderosos se protegem, enquanto meninas em situação vulnerável viram custo operacional. Nada disso é novidade.

A única coisa nova é o espanto coletivo encenado. Enquanto isso, textos como este seguem vistos como exagero ou militância. A raiva da mulher que se recusa a engolir a destruição em silêncio é sempre questionada. Essa mesma palavra raramente descreve homens que causam danos reais.

O padrão que se repete

Escrevo sobre violência não por gosto. Escrevo porque o tema persiste e organiza o mundo ao nosso redor. Os arquivos de Epstein não são uma exceção monstruosa. Eles são o manual de funcionamento de um sistema perverso.

Eles mostram homens comprando acesso, vendendo silêncio e terceirizando culpas. Mostram a alegação de ignorância com a naturalidade de quem sempre foi absolvido. Acima de tudo, revelam como a sociedade só acredita em mulheres quando um homem confirma a história.

Quando uma mulher diz “fui abusada”, pedem provas. Quando dezenas falam, pedem calma e ponderação. Quando centenas se manifestam, pedem tempo para apuração. Quando surge um documento, todos pedem justiça. Mas justiça para quem?

A cultura que ensina e silencia

Até agora, o roteiro é conhecido. Nomes circulam, manchetes explodem, debates esquentam nas redes. O sistema, porém, segue intacto. Não se trata de falta de informação. É uma escolha social. Escolhemos conviver com a violência desde que ela não ameace nosso conforto.

Protegemos reputações em vez de pessoas. Desacreditamos mulheres porque acreditar nelas desmonta estruturas de poder. Meus textos nascem da observação do padrão histórico. Toda menina aprende cedo demais a ter medo. Todo menino absorve, cedo demais, que provavelmente ficará impune.

Os arquivos deveriam ser lidos como prova material de uma cultura. A cultura que ensina homens a tomar e mulheres a suportar. Que chama abuso de “caso”, exploração de “escândalo” e estupro de “polêmica”. Uma distorção perigosa das palavras.

Sei que amanhã haverá outro nome, outro arquivo. Enquanto homens ocuparem os lugares de poder, decidindo o que é verdade ou dúvida, mulheres seguirão sofrendo duplamente. Uma vez no corpo, outra na credibilidade.

Os arquivos não contam uma história nova. Apenas carimbam a história que as mulheres sempre contaram. A verdade, quando finalmente aparece, quase sempre chega atrasada. Mas as mulheres estavam lá desde o início. Falando, avisando, sobrevivendo. Ninguém pode dizer que não sabia.

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