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A Europa anda nos trilhos

Imagine cruzar um país de ponta a ponta sentado confortavelmente, observando a paisagem passar pela janela, sem se preocupar com trânsito ou preços abusivos. Na Europa, essa cena é parte do cotidiano. O trem é muito mais que um meio de transporte; é um serviço público essencial, que conecta pessoas e lugares com eficiência.

Redes ferroviárias densas e bem integradas permitem viagens rápidas e acessíveis entre grandes cidades e até países diferentes. É possível ir de Milão a Paris, por exemplo, com conforto, silêncio e até um bom serviço de bordo. Essa realidade transforma o trem na espinha dorsal da mobilidade continental, uma escolha óbvia para milhões.

Enquanto isso, ao pensar em viajar pelo Brasil, qual é a primeira opção que vem à mente? Para a grande maioria, a imagem é a de uma estrada. Nossa história de transporte foi construída sobre pneus e asfalto. As ferrovias, que poderiam ser uma solução estratégica, acabaram relegadas a um plano secundário ao longo das décadas.

A Europa sobre trilhos

O sistema ferroviário europeu não nasceu pronto por acaso. Ele é resultado de decisões políticas de longo prazo, que entenderam o trem como um investimento no desenvolvimento. A ferrovia é energeticamente mais eficiente, transporta muitas pessoas e cargas de uma vez e polui menos do que outras modalidades.

Essa aposta trouxe benefícios concretos para a população. Cidadãos comuns podem fazer viagens de negócios ou turismo entre capitais sem depender de carro ou avião. O custo logístico das empresas cai, as emissões de poluentes são reduzidas e as pessoas ganham tempo. O trem se tornou um verdadeiro instrumento de integração social e territorial.

A prioridade ao transporte coletivo sobre trilhos também diminuiu a dependência excessiva dos combustíveis fósseis e do transporte individual. É uma solução que olha para o futuro, pensando em sustentabilidade e em oferecer uma alternativa democrática e de qualidade para o deslocamento de milhões.

A estrada escolhida pelo Brasil

Em contraste, o Brasil trilhou um caminho diferente ao longo do século XX. A ideia de progresso foi atrelada à construção de rodovias. Enquanto isso, nossas ferrovias foram sendo abandonadas, sucateadas ou direcionadas quase que exclusivamente para o transporte de commodities, como minério e grãos.

O resultado dessa opção é um sistema caro e cheio de problemas. Temos estradas sobrecarregadas, fretes elevados para o transporte de carga e um número alto de acidentes. Para o passageiro, as opções ferroviárias são limitadas, muitas vezes lentas e com custo pouco acessível. O país ficou refém do asfalto.

Num território de dimensões continentais como o nosso, a falta de uma malha ferroviária moderna para pessoas gera um custo social enorme. As viagens se tornam longas e desgastantes, regiões inteiras ficam isoladas e a população fica à mercê dos preços da gasolina, dos pedágios e dos congestionamentos intermináveis.

Os trilhos do interesse público

Por trás dessas escolhas, está uma questão de visão de futuro e de prioridades. Na Europa, o entendimento de que o trem é um serviço público estratégico prevaleceu. No Brasil, os investimentos maciços em rodovias frequentemente atenderam a interesses econômicos concentrados, criando ciclos viciosos de manutenção de obras.

Esse modelo, infelizmente, se mostrou vulnerável a desvios e falta de transparência. Obras rodoviárias, com seus constantes contratos, podem se tornar terreno fértil para problemas. Já projetos ferroviários exigem planejamento de longo prazo e gestão técnica, o que os torna menos "flexíveis" para certos interesses.

Colocar o Brasil nos trilhos, portanto, vai muito além de construir ferrovias. É uma mudança de mentalidade. Significa priorizar um transporte que seja mais barato, mais seguro e menos poluente para toda a sociedade. É um projeto que pode integrar melhor o país, reduzir desigualdades regionais e libertar a economia da excessiva dependência do caminhão. A Europa mostra que é possível. Resta saber quando esse debate sairá do papel por aqui.

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