O ano é 1977. A ditadura militar no Brasil, supostamente perto do fim, ainda impõe seu medo e seu controle. No Recife, a agitação do Carnaval mistura-se com um rumor absurdo que toma a cidade: o ataque de uma misteriosa “perna cabeluda” a casais em um parque. É nesse clima de tensão disfarçada de folia que se desenrola a trama de “O Agente Secreto”, filme premiado que opta por um caminho sutil para retratar o regime.
A história acompanha o retorno do professor Armando Solimões, vivido por Wagner Moura, à capital pernambucana. Ele usa um nome falso, Marcelo Alves, pois precisa resgatar o próprio filho e fugir do país. Uma ordem judicial o impede de sair, e uma investigação do Ministério Público Federal pesa sobre ele. O perigo real, porém, vem de um conflito do passado.
Tudo começou em 1975, quando Armando, então na Universidade Federal de Pernambuco, recebeu o empresário Henrique Ghirotti. A reunião tratava de uma patente para um carro elétrico com bateria de lítio, tecnologia que ameaçava os interesses da empresa do empresário. Esse embate pessoal acabou se transformando em uma perseguição implacável, financiada por poder e influência.
A aliança perigosa entre empresas e repressão
O filme mostra como a ditadura não era sustentada apenas por fardas. Havia uma sólida aliança com setores civis, especialmente empresariais. Ghirotti, o antagonista, personifica isso. Ele é um empresário de São Paulo com ligações diretas com o regime e até representava a indústria no conselho da Eletrobrás. Usou esse poder para desmantelar o departamento da universidade onde Armando trabalhava.
Para eliminar o professor, ele não precisa sujar as próprias mãos. Contrata um ex-capitão do Exército, Augusto, e seu enteado para fazer o trabalho, com auxílio de policiais civis. Esse modus operandi não é ficção pura. Na vida real, empresários participavam ativamente da repressão. Alguns, como Albert Boilesen, da Ultragaz, iam pessoalmente aos centros de tortura para assistir aos interrogatórios que financiavam.
Essa conivência começou antes mesmo do golpe de 1964, com reuniões entre militares e empresários para planejar o futuro do país. Grandes grupos, como a Belgo Mineira e a Mannesmann, estavam envolvidos. Até mesmo em redações de jornais, como a Folha de S. Paulo, havia agentes do regime infiltrados, mostrando como a teia de apoio era ampla e profundamente entranhada na sociedade.
A rede de solidariedade em meio ao terror
Diante de tantas ameaças, Armando encontra abrigo em uma entidade de direitos humanos formada por opositores do regime. Eles fornecem uma identidade falsa e os documentos necessários para a fuga. O refúgio na cidade é o Edifício Ofir, onde ele conhece Dona Sebastiana e outros perseguidos, formando uma comunidade sob constante risco de morte.
Na realidade, instituições ligadas à Igreja Católica desempenharam papel similar. A Cáritas, no Rio de Janeiro, e o Clamor, em São Paulo, davam suporte a estrangeiros fugitivos de outras ditaduras sul-americanas. No Rio, com a proteção do cardeal dom Eugênio Sales, refugiados eram abrigados no próprio Palácio de São Joaquim, sede da arquidiocese, sem serem molestados.
A Cáritas fazia o acolhimento social, organizando moradia e oferecendo apoio psicológico e médico. Como o Brasil não podia reconhecer formalmente esses casos, a entidade fazia a ponte com o ACNUR, da ONU, para que fossem reassentados em países como França e Suécia. Era um trabalho perigoso. A solidariedade podia custar a liberdade ou a vida, como aconteceu com o deputado Rubens Paiva.
A banalização da violência e do assassinato
No filme, o matador Augusto busca a ajuda de um delegado de polícia no Recife para cumprir sua missão. A reunião acontece dentro de uma viatura, enquanto dois suspeitos de roubo estão prestes a ser executados. Essa cena forte não é um exagero cinematográfico. Relatos na Comissão Nacional da Verdade detalham operações cruzadas entre órgãos de repressão.
Delegados atuavam em conjunto com o DOI-CODI e outras agências. Claudio Guerra, da polícia do Espírito Santo, confessou ter realizado assassinatos em São Paulo e incinerado corpos no Rio. Em Pernambuco, o famoso delegado Sérgio Fleury, do DOPS de São Paulo, comandou o Massacre da Chácara São Bento com apoio das polícias local e militar, resultando na morte de seis militantes.
Essas ações criaram no Recife, como o filme retrata, uma sensação de estado policial. A “banalidade do mal”, conceito da filósofa Hannah Arendt, se materializava em execuções sumárias e mortes sem processo legal. Até mesmo o rumor fantástico da “perna cabeluda” é visto por estudiosos como uma metáfora distópica, uma reação simbólica aos corpos desaparecidos nos mangues da cidade.
Kleber Mendonça Filho escreveu o roteiro durante a pandemia, refletindo sobre como o conservadorismo atual parece uma versão nostálgica daquela ditadura. O filme é, no fundo, sobre memória. Sobre a história real que muitos conhecem e outros tentam negar, misturada às lembranças pessoais que nem sempre seguem uma lógica linear. É um convite para não esquecer e, assim, fortalecer a democracia para que aqueles tempos sombrios não se repitam.
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