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a curiosa rede de rádios de Eduardo Cunha

Há um movimento silencioso tomando forma nas cidades do interior de Minas Gerais. Antenas estão sendo erguidas e novas vozes começam a ecoar pelo dial do rádio. Por trás desse cenário, surge uma figura conhecida do público brasileiro, tentando reescrever sua trajetória longe dos holofotes nacionais. O plano parece simples, mas esconde camadas que merecem atenção.

Eduardo Cunha, antigo presidente da Câmara dos Deputados, agora mira uma cadeira no Congresso por Minas Gerais. Para alcançar esse objetivo, ele está construindo uma ampla rede de emissoras de rádio. As frequências escolhidas e a velocidade da expansão chamam a atenção de quem acompanha o cenário político. Tudo acontece enquanto sua situação jurídica permanece indefinida perante as cortes eleitorais.

A estratégia envolve dezenas de estações espalhadas por diversas regiões do estado. Cada inauguração vira um evento local, com direito a palanque e entrevistas. O discurso público é de propriedade e gestão direta sobre os veículos. No entanto, os registros oficiais contam uma história completamente diferente, sem nenhum vínculo formal do político com essas empresas.

A rede que ninguém vê no papel

As emissoras operam majoritariamente na frequência oitenta e nove FM. Elas carregam o nome Rede Oitenta e Nove Maravilha em sua identificação. O curioso é que o número de campanha registrado por Eduardo Cunha é mil e oitenta e nove. A repetição sonora dos dois últimos dígitos não parece uma simples coincidência estratégica.

Mais de vinte cidades mineiras já contam com uma dessas rádios em operação. A lista inclui desde a capital Belo Horizonte até municípios como Teófilo Otoni e João Pinheiro. A programação segue um viés religioso evangélico, buscando uma conexão direta com esse segmento do eleitorado. A expansão ocorreu em um intervalo de tempo muito curto, levantando questionamentos sobre a origem dos recursos.

A Polícia Federal investiga se houve direcionamento de emendas parlamentares para essas localidades. A suspeita é que deputados aliados tenham sido usados para liberar verbas públicas, principalmente da saúde, nessas áreas. O objetivo seria criar uma contrapartida favorável durante as negociações para a instalação das emissoras. A Justiça Eleitoral também analisa uma denúncia por abuso de poder econômico.

Os nomes que aparecem nos registros

A maioria das empresas donas das rádios está registrada em nome de Daniel Cardoso de Sá. Ele é genro de Eduardo Cunha e marido da deputada federal Danielle Cunha. Documentos da Receita Federal mostram ele como administrador de um grande número de empresas de radiodifusão. Essas sociedades foram abertas principalmente entre dois mil e vinte e três e dois mil e vinte e cinco.

A estrutura se estende além de Minas Gerais, alcançando cidades do Rio de Janeiro. Holdings como Valore Holding e D2C completam o arranjo societário na ponta. As datas de constituição das empresas revelam uma operação montada em ritmo acelerado. Tudo aconteceu no período imediatamente anterior ao ciclo eleitoral, configurando uma pré-campanha permanente no ar.

Em alguns municípios, no entanto, a compra anunciada simplesmente não se concretizou nos documentos. Em João Pinheiro, por exemplo, duas rádios foram apresentadas como novas aquisições. Os registros oficiais, porém, mostram que as empresas seguem com os antigos proprietários, membros de uma mesma família. Um deles é ex-vice-prefeito e já atuou como assessor no Senado Federal.

A contradição entre o discurso e a declaração

Publicamente, Eduardo Cunha age como proprietário e gestor da rede. Em visitas às cidades, ele detalha planos de expansão, mudanças de frequência e aumento de potência das antenas. Chega a afirmar que a rede é certamente a maior de Minas Gerais e que já avança para outros estados. O tom é de quem comanda pessoalmente todos os negócios.

A declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral, contudo, não menciona nenhuma emissora de rádio. O patrimônio listado soma cerca de quatorze milhões de reais. Desse total, mais de doze milhões estão bloqueados em uma conta judicial. O restante inclui um carro modelo dois mil e sete, partes de imóveis e um plano de previdência de valor modesto.

Essa discrepância gera uma pergunta inevitável. Com qual capital alguém adquire mais de vinte estações de rádio? Os bens declarados, descontando o valor judicialmente retido, não se aproximam do investimento necessário para uma operação desse porte. O dinheiro que ergueu a rede e as próprias emissoras parecem existir em um espaço separado dos registros oficiais.

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