Você sempre atualizado

a curiosa rede de rádios de Eduardo Cunha

Eduardo Cunha quer voltar à política. Sem poder usar seu próprio patrimônio, ele encontrou um caminho para fazer campanha muito antes das eleições. A estratégia passa por dezenas de rádios no interior de Minas Gerais.

O ex-presidente da Câmara, que articulou o impeachment de Dilma Rousseff, agora tenta uma vaga de deputado federal. Seu registro está sub judice, pois ele ainda é inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Mas isso não o impediu de montar uma rede de comunicação.

Ele batizou a rede de 89 Maravilha. O número não é por acaso. Sua candidatura pelo Republicanos carrega o número 1089. As rádios operam quase todas na frequência 89 FM. É uma forma de fixar os dígitos no ouvido do eleitor.

Uma rede que não existe no papel

A expansão foi rápida e atingiu mais de vinte cidades mineiras. De Uberlândia a Teófilo Otoni, as inaugurações seguem um roteiro parecido. Eduardo Cunha sobe ao palanque, dá entrevistas e anuncia a chegada da “rádio de todas as igrejas”.

Porém, há um detalhe crucial. Nos registros oficiais, seu nome não aparece como dono de nenhuma emissora. Nem na Receita Federal, nem na declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral. A rede existe, mas não está no nome dele.

A Polícia Federal investiga se Cunha direcionou emendas parlamentares para municípios onde comprava rádios. A suspeita é de que deputados atuaram como testas de ferro para esconder o real interessado. O objetivo seria construir poder de influência local.

Os verdadeiros donos das frequências

Quem aparece como proprietário, em muitos casos, é o genro de Cunha, Daniel Cardoso Sá. Ele é marido da deputada Danielle Cunha. Diversas empresas de radiodifusão estão registradas em seu nome, muitas criadas entre 2023 e 2025.

Em outras cidades, a situação é mais complexa. Em João Pinheiro, Cunha anunciou a compra de duas rádios. Ele disse que iria integrá-las à sua rede e ajustar as frequências para 89 FM. A notícia foi amplamente divulgada pela imprensa local.

Contudo, os registros mostram que as rádios continuam nas mãos da mesma família de sempre. Os sócios são empresários com carreira política própria e trânsito em Brasília. Ou seja, a compra anunciada publicamente não se refletiu nos documentos.

A contradição entre o discurso e a declaração

Publicamente, Eduardo Cunha age como dono. Ele fala em cuidar dos seus interesses em Minas e expandir a rede para outros estados. Trata a Rede 89 Maravilha como seu principal projeto de comunicação e negócio familiar.

Na Justiça Eleitoral, a história é outra. Sua declaração de bens lista um patrimônio de cerca de 14 milhões de reais. Desse total, mais de 12 milhões estão bloqueados judicialmente. O resto são bens como um carro antigo e frações de imóveis.

Não há nenhuma menção a empresas de radiodifusão ou à rede de rádios. A pergunta que fica é simples: com qual dinheiro ele está montando esse império midiático? Os recursos não aparecem, assim como as emissoras não constam formalmente como suas.

A representação por abuso de poder econômico já foi protocolada. Enquanto isso, as rádios seguem no ar, repetindo diariamente a frequência que coincide com os números de sua candidatura. A pré-campanha já está tocando, oficialmente ou não.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.