É um momento difícil para qualquer adulto acompanhar as notícias. Imagens de conflitos distantes chegam a todo instante, muitas envolvendo os mais jovens. Diante de cenas tão duras, é natural nos perguntarmos: o que será que as crianças pensam de tudo isso? Será que ainda sabemos ouvir o que elas sentem?
Essa reflexão nos leva a um ensinamento muito antigo, vindo da África Ocidental. Nele, a divindade suprema, Mawú, criou o mundo e distribuiu tarefas importantes entre seus muitos filhos. Cada um recebeu um domínio: as ferramentas, as florestas, os mares, o sol.
Centenas de voduns ganharam suas funções, exceto o mais novo, Legba. Por ser apenas uma criança, ele foi deixado de lado e até zombado pelos irmãos. Considerado incapaz para a guerra ou o trabalho, ele parecia não ter utilidade alguma para o grupo.
Enquanto todos partiam para seus postos, Legba ficou pertinho de Mawú, agarrado à barra da saia da Grande Mãe. Essa proximidade fez toda a diferença no desenrolar da história. Mawú havia ensinado uma língua secreta a cada um de seus filhos, mas apenas Djó dominava o poder da palavra.
Com o tempo, voduns e humanos aprenderam a se comunicar entre si, usando várias línguas. No entanto, todos esqueceram a língua original de Mawú, a língua da própria criação. Perderam a conexão direta com o princípio de tudo.
Apenas Legba, a criança desprezada, permaneceu ao lado da mãe. Por isso, ele é o único que ainda sabe falar a língua dela. Ele se tornou o mensageiro essencial, o elo que todos os outros haviam perdido.
Hoje, os voduns, as mulheres e os homens precisam de Legba para se comunicar com Mawú. Ele é o intermediário obrigatório. Sua função é levar e trazer as mensagens, os pedidos e os agradecimentos das criaturas até a Mãe do Mundo.
Sem ele, não é possível entender os mistérios ou as dádivas da criação. Essa história ancestral guarda um alerta poderoso para os nossos dias. Uma comunidade que vira as costas para suas crianças está, simbolicamente, abandonando seu Legba.
Ao não cuidar dos mais novos e não ouvir o que têm a dizer, perdemos uma conexão vital. Deixamos de entender os sinais do mundo e os desejos da própria vida. Ficamos surdos e mudos diante do essencial.
O resultado é um caminho de confusão e autodestruição. Cavamos, sem perceber, as covas de nossa própria desgraça. A mensagem final do mito é um convite urgente à escuta. Precisamos dar espaço à sensibilidade e à percepção das crianças.
Elas podem estar enxergando coisas que nós, adultos, já não conseguimos ver. Podem sentir nuances que nossa visão cansada ignora. Em um mundo barulhento e violento, a voz suave de uma criança pode carregar a sabedoria que falta.
O poder de Legba pode estar bem na nossa frente, no olhar curioso de um filho, no comentário espontâneo de uma aluna, no silêncio eloquente de uma pequena testemunha do mundo. Cabe a nós parar, acolher e, principalmente, escutar.
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