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Beach club embargado da família Vorcaro realiza evento no pré-Carnaval da Bahia

Uma festa animada no último fim de semana acendeu um novo alerta sobre um empreendimento polêmico em Arraial d’Ajuda. O Erê Beach Club, ainda em construção, foi palco de uma celebração pré-carnaval. O problema é que a obra está oficialmente embargada pelos órgãos fiscalizadores. Enquanto as imagens da festa circulavam nas redes, a situação expôs uma teia de irregularidades e conflitos que vai muito além de uma simples festa.

O espaço fica na Praia de Araçaípe, uma área de proteção ambiental sensível. O local integra um conjunto arquitetônico e paisagístico tombado como patrimônio histórico desde a década de 1970. A construção, no entanto, avançou com a supressão total da vegetação de restinga nativa. Módulos de grande porte foram erguidos sem a devida autorização. Por essas razões, o Iphan determinou o embargo no final de janeiro.

A ordem era para paralisar as obras, mas não impediu a realização de um evento social. Vídeos mostram pessoas aproveitando a estrutura do clube no último domingo. A cena gerou questionamentos imediatos sobre como um local embargado pode funcionar normalmente. A resposta dos responsáveis pelo empreendimento revela uma brecha curiosa na legislação.

A justificativa para o funcionamento

Procurado, um dos responsáveis pelo Beach Club, Genaro Campos, deu uma explicação aparentemente técnica. Ele afirmou que a licença de funcionamento do estabelecimento está válida e foi emitida antes do embargo da construção. “A obra está embargada, minha licença de funcionamento não”, declarou. Segundo ele, o alvará foi concedido pela prefeitura de Porto Seguro no ano passado.

Campos reforçou que a situação da obra está em processo de regularização junto aos órgãos. A confirmação da licença veio através de um documento da Secretaria Municipal da Fazenda. O papel autoriza a empresa “O Erê Beach Club LTDA” a funcionar, com uma primeira emissão em setembro do ano passado. A classificação principal é de bar com entretenimento.

A validade inicial dessa licença ia até o final de dezembro. No entanto, Genaro Campos menciona a existência de uma nova permissão, estendida até agosto deste ano. Essa informação cria um cenário de conflito administrativo evidente. De um lado, a construção é considerada irregular. De outro, a prefeitura local teria permitido que o negócio abrisse as portas.

Os bastidores e os envolvidos

O empreendimento não é um projeto modesto. Estima-se que o valor do Beach Club chegue a 25 milhões de reais. Por trás dele, está a família Vorcaro, conhecida por seu controle sobre o Banco Master. A empresa responsável pela obra é a Milo Investimentos S.A. Seus diretores são justamente Henrique Moura Vorcaro e sua filha, Natalia Bueno Vorcaro Zettel.

Os nomes são centrais em um dos maiores escândalos financeiros recentes no país. Eles foram alvos da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. A investigação apura desvios de recursos do Banco Master. Henrique é pai de Daniel Vorcaro, e Natalia, além de irmã de Daniel, é esposa de Fabiano Zettel. Todos são figuras‑chave no processo.

A tentativa de contato com a prefeitura de Porto Seguro para esclarecer a emissão do alvará não obteve retorno. A Milo Investimentos também não se manifestou sobre as contradições. A situação permanece em um limbo. Enquanto os órgãos ambientais e de patrimônio tentam frear os impactos da construção, uma licença municipal parece autorizar a operação do negócio.

A festa no domingo foi, portanto, mais do que um evento social. Ela funcionou como um espelho de uma realidade complexa. Mostrou como brechas regulatórias e conflitos entre instâncias do poder permitem que situações irregulares sigam em frente. O caso segue em aberto, aguardando definições que conciliem a lei, o patrimônio público e os interesses privados.

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