Ontem, um novo modelo começou em cem escolas estaduais paulistas. A rotina agora inclui formação para o hino, filas e regras rígidas para aparência. A proposta promete trazer mais organização e respeito ao ambiente escolar. Mas o método adotado levanta questões importantes sobre o que realmente significa educar.
A disciplina em si não é um problema. Todo espaço coletivo precisa de combinados para funcionar. A questão surge quando essas regras deixam de ser um caminho para o aprendizado e se tornam o objetivo final. O foco excessivo no controle do corpo e do comportamento pode mais enquadrar do que formar.
O desafio das escolas públicas vai muito além do cabelo colorido ou da falta de fila. São questões profundas: falta de professores valorizados, equipes de apoio e políticas sérias para mediar conflitos. Muitas vezes, a ordem disciplinar rígida tenta preencher um vazio de estrutura pedagógica. É um remendo, não uma solução.
O investimento em vigilância
Um dado concreto ajuda a entender as prioridades em jogo. Monitores do programa, muitos policiais militares aposentados, recebem um complemento salarial. Esse valor extra é maior do que o piso de um professor da rede estadual com diploma universitário. A informação foi revelada em reportagem da Folha de S.Paulo.
Isso não é um mero detalhe orçamentário. É uma escolha que fala alto. Diante dos desafios educacionais, decidiu-se investir mais em vigilância do que em pedagogia. A maioria dos selecionados são praças, sem exigência de ensino superior. O complemento que recebem supera em 8% o salário inicial de um docente.
O que esse fato nos diz? Ele desloca o debate do campo moral para o político. Mostra para onde os recursos e a importância estão sendo direcionados. Em vez de fortalecer quem constrói o conhecimento, amplia-se a estrutura de controle. É um sinal claro sobre qual método se acredita ser mais eficaz.
Autoridade x coerção
Medidas de vigilância costumam gerar resultados rápidos. Elas produzem silêncio e uma aparência imediata de ordem. A pergunta que fica, porém, é outra. Que tipo de indivíduo se forma a longo prazo quando conflitos são tratados apenas como desvios de conduta? A padronização não resolve problemas sociais, apenas os adia.
A filósofa Hannah Arendt faz uma distinção crucial que segue atual. Autoridade não é a mesma coisa que coerção. Quando precisa usar a força, a autoridade já falhou. A escola deveria ser o espaço por excelência para construir legitimidade através do diálogo. Um lugar para aprender responsabilidade compartilhada.
O risco é trocar a construção da cidadania pela naturalização da obediência cega. Enquadrar corpos e hábitos não ensina a lidar com divergências. Apenas ensina a evitá-las. No futuro, como essa pessoa vai exercer seu papel na sociedade? Aprendendo desde cedo que questionar é perigoso.
A pergunta incômoda
Há uma questão desconfortável que ronda todo esse debate. Por que práticas como revista corporal e padronização rígida são aceitas para certos grupos? Elas seriam consideradas impensáveis em colégios de elite. O que estamos ensinando implicitamente quando aplicamos isso apenas em algumas realidades?
Estamos dizendo que a presença de alguns no espaço público está condicionada. Precisa de mais controle e submissão. A escola é um dos primeiros lugares onde se aprende sobre cidadania. Essa lição pode ser sobre participação e convivência com as diferenças. Ou pode ser sobre hierarquia e silêncio.
No final, a escolha é sobre qual lição queremos passar. Se a ordem externa vale mais do que a dignidade. Se obedecer é mais seguro do que pensar. A resposta define não só o ambiente escolar, mas o tipo de sociedade que estamos ajudando a construir para o futuro. O debate, portanto, é de todos nós.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.