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FERNANDA MELCHIONA: Dados revelam um país em disputa aberta

O Brasil vive um momento de definições profundas. A política nunca esteve tão presente no dia a dia das pessoas, mas os sentimentos em torno dela são dos mais contraditórios. Uma pesquisa recente joga luz sobre essa divisão, mostrando um país que discute muito, mas que sofre com a desconfiança.

A grande maioria dos brasileiros, 55%, enxerga a política como algo importante e interessante. Para essas pessoas, ela é um caminho legítimo para mudar a realidade e construir um futuro coletivo. Esse número por si só já derruba a ideia de que o povo é alienado ou não se importa com o que acontece no país.

No entanto, convivendo com essa visão, temos um outro grupo significativo. Para 36% dos entrevistados, a política é algo necessário, mas extremamente desgastante e estressante. Outros 5% se sentem abertamente manipulados e explorados por ela. Isso significa que, somados, mais de 40% da população vive a política como uma fonte de frustração.

Essa desilusão não é um sentimento genérico que atinge a todos igualmente. Ela se concentra de forma mais intensa em alguns grupos específicos da sociedade. Quem está insatisfeito com o governo atual, por exemplo, tende a ver a política com muito mais angústia e ressentimento.

Onde a desconfiança mais se concentra

A experiência política muda drasticamente dependendo da situação econômica. A pesquisa mostra que a descrença no sistema é mais aguda entre a população de baixa renda, especialmente nas periferias. São justamente aqueles que mais sentem na pele a precarização do trabalho e a insegurança material.

Nesses locais, os laços comunitários também estão mais fragilizados, o que abre espaço para o sentimento de desamparo. A política, em vez de aparecer como uma ferramenta de solução, é vista como parte do problema, um espaço distante e corrupto. A confiança simplesmente se esvai.

A escolaridade traz um dado curioso. Ter mais estudo aumenta em cerca de 8 pontos a sensação de que se compreende a política, reduzindo aquele sentimento de estar perdido. No entanto, a desconfiança de ser manipulado pelo sistema permanece a mesma, independente do nível de instrução.

O apelo por ordem e a busca por saídas

Um dado que chama a atenção é que 13% dos brasileiros manifestam um desejo forte por proteção e ordem acima de tudo. Esse grupo tem valores conservadores, mas depende profundamente do Estado para sua sobrevivência. Suas escolhas eleitorais podem ser voláteis, guiadas mais pela necessidade imediata do que por uma ideologia fixa.

É justamente nesse terreno de medo e incerteza material que discursos autoritários encontram solo fértil para crescer. A promessa de uma solução forte e simplificada para problemas complexos pode soar atraente quando a sensação é a de abandono. A ideologia, nesses casos, passa para um segundo plano.

A pesquisa ainda revela que 35% dos brasileiros acreditam que o país precisa de uma revolução. O paradoxo é que essa visão de mudança radical não está concentrada apenas em um espectro político. Ela aparece com força também entre quem se identifica com a centro-direita e a direita.

Um campo aberto para disputas

Os números desenham um panorama de disputa aberta pelo coração e pela mente do país. O avanço de ideias extremistas não acontece no vácuo. Ele se alimenta ativamente do ressentimento, da insegurança e da deslegitimação que partes da população sentem em relação ao sistema político e às instituições.

Plataformas de desinformação e certos discursos religiosos reacionários muitas vezes atuam como amplificadores desse mal-estar. Eles convertem o sofrimento social concreto em raiva direcionada, canalizando a frustração para uma demanda por ordem, mesmo que autoritária. O desafio que fica é como construir uma resposta a altura.

A pergunta que fica no ar é como oferecer uma saída que dialogue de verdade com o sofrimento gerado pelas políticas econômicas excludentes. Como construir um futuro que pareça atraente e possível para quem hoje só enxerga o presente como uma luta diária pela sobrevivência. O campo está aberto, e a narrativa que melhor responder a isso definirá os próximos capítulos.

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