Você sabe aquela sensação de estar sendo observado? Para alguns gestores públicos do Recife, isso não foi apenas uma impressão. Um caso recente revelou que um secretário municipal foi seguido por meses por agentes da Polícia Civil de Pernambuco. A situação chegou ao Supremo Tribunal Federal, que determinou uma investigação federal sobre o assunto.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, pediu à Polícia Federal que apure um suposto monitoramento indevido. A ordem partiu após uma reportagem mostrar que o secretário de Articulação Política, Gustavo Queiroz Monteiro, foi alvo de vigilância entre agosto e outubro do ano passado. Agentes seguiam o carro dele e do irmão, trocando mensagens em um grupo.
Em setembro, chegaram a instalar um rastreador no veículo, tudo sem uma ordem judicial. O caso escancara a tensão política entre o prefeito João Campos, do PSB, e a governadora Raquel Lyra, do PSD, que são rivais nas próximas eleições. O processo corre em sigilo, mas o gabinete do ministro divulgou os principais pontos da decisão.
A investigação da PF deve verificar se houve algum crime federal ou eleitoral na conduta dos policiais. Por ora, o foco não é apurar responsabilidade direta de autoridades do governo estadual. O ministro, porém, deixou claro que os fatos são sérios e podem ferir princípios básicos, como o direito à privacidade e a impessoalidade da administração pública.
Além de mandar a PF investigar a polícia estadual, Gilmar Mendes também parou uma investigação do Ministério Público de Pernambuco. O Gaeco, grupo que combate o crime organizado, vinha apurando supostas irregularidades em atas de preços de consórcios intermunicipais. Três servidores da prefeitura recorreram ao STF alegando perseguição.
Eles disseram que eram alvos de medidas investigativas desproporcionais e genéricas. O ministro concordou que houve um desvio de finalidade no procedimento. Para ele, o MP agiu de forma padronizada, sem individualizar as condutas de cada servidor investigado, o que configura uma “pesca probatória”.
O caso de vigilância política foi anexado a esses autos. A alegação é que a Polícia Civil usou tecnologia de rastreamento e reconhecimento facial para monitorar integrantes do primeiro escalão da prefeitura. O relator viu indícios de que o procedimento do Gaeco foi desvirtuado, com intimações sem decisões judiciais específicas.
Na avaliação do ministro, solicitar informações patrimoniais sensíveis de mais de vinte secretários de uma vez, sem justificativa clara para cada um, foi um excesso. A decisão busca separar o que é investigação legítima do que pode ser uso político de estruturas do estado. O cenário reflete um clima eleitoral acirrado.
Do lado do prefeito João Campos, a narrativa é de perseguição política. Ele afirmou que o episódio não ficará impune e que “não vale tudo para disputar uma eleição”. Campos citou que já é alvo de uma “grande rede de ódio” desde 2024, com investigações que foram reabertas em período eleitoral e depois arquivadas.
Ele prometeu tomar todas as medidas cabíveis na Justiça para responsabilizar os envolvidos. A defesa é de que instituições sérias, como a Polícia Civil, não podem ser instrumentalizadas para fins políticos. A declaração coloca ainda mais lenha na fogueira da disputa com a governadora.
Raquel Lyra, por sua vez, saiu em defesa da Polícia Civil. Ela afirmou que o papel de investigação foi cumprido “dentro da legalidade” e que a denúncia que deu origem às apurações era grave. A governadora reforçou que “ninguém está acima da lei” e que é preciso combater a corrupção.
Ela não comentou diretamente as alegações de vigilância, focando na legitimidade do trabalho investigativo geral. As falas mostram como o caso é interpretado de formas opostas pelos dois lados do embate político. Enquanto um fala em abuso, o outro fala em legalidade e combate à ilegalidade.
O desfecho agora depende dos rumos da investigação da Polícia Federal. O STF criou um novo capítulo nessa história, transferindo a análise do caso para uma esfera federal. A população acompanha para ver se o que houve foi um excesso de zelo investigativo ou uma ferramenta de pressão em ano eleitoral.
A expectativa é que a PF consiga esclarecer os fatos com isenção, longe das pressões locais. Casos como esse acendem um alerta sobre os limites da atuação estatal. A linha entre fiscalização e perseguição pode ser tênue, especialmente em um período de polarização e campanha eleitoral.
Informações inacreditáveis como estas mostram a complexidade da política brasileira. O episódio segue em desenvolvimento, com a justiça tentando separar o joio do trigo. O que fica claro é a necessidade de transparência e respeito às leis, para que a disputa política ocorra sempre em campo democrático.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.