O governo federal está preparando uma mudança significativa no Coaf, o conselho que monitora operações financeiras. A ideia é fortalecer o combate a crimes como lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo. A medida surge após uma série de desafios que testaram a segurança do sistema.
O plano, em formato de decreto, prevê a criação de 66 novos cargos de confiança e seis escritórios regionais. A proposta partiu do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e está com o Ministério da Gestão. O órgão tem cerca de um mês para se manifestar sobre a reestruturação.
O contexto é de transformação. As transações financeiras hoje envolvem criptomoedas e fluxos globais complexos. O Coaf, que já processa milhões de comunicações por ano, precisa se modernizar. A estrutura atual, segundo os técnicos, está defasada e sobrecarregada.
Um órgão em expansão
Desde 2019, o Coaf está vinculado ao Banco Central e suas responsabilidades só aumentaram. No entanto, o quadro de servidores efetivos é considerado limitado. Há também alta rotatividade de profissionais emprestados de outras repartições.
Isso dificulta a formação de equipes especializadas e permanentes. O resultado é uma perda de celeridade nas análises de inteligência. A efetividade das ações de supervisão acaba comprometida.
A proposta elevará o total de cargos comissionados de 75 para 141. Desses novos postos, 48 serão para a sede, em Brasília. Os outros 18 serão destinados aos novos núcleos regionais que estão previstos.
O timing da mudança
Criar cargos em um ano eleitoral, como 2026, não é proibido. A legislação eleitoral em si não veta. A restrição viria da Lei de Responsabilidade Fiscal nos últimos seis meses de mandato.
Nesse período, é proibido aumentar a despesa com pessoal. No entanto, cargos em comissão, como os propostos, têm exceções legais. A manobra, portanto, é viável dentro do marco regulatório.
A reestruturação ganha urgência após eventos recentes. O Banco Central já vinha apertando regras após ataques hackers e a infiltração do crime organizado na economia formal. Operações contra facções em setores como combustíveis acenderam um alerta.
Presença regional estratégica
Um dos pilares da mudança é a descentralização. Serão criadas seis subunidades de inteligência financeira em pontos estratégicos do país. A carência de estruturas locais é um problema antigo.
Sem elas, a resposta a ameaças fica mais lenta e menos precisa. A cooperação com polícias estaduais e outras autoridades também esbarra na distância. A ideia é ter olhos e ouvidos mais próximos dos problemas.
Cada unidade terá um coordenador-geral, dois coordenadores e oito servidores especializados. Suas funções vão da análise financeira à cooperação com as forças de segurança locais. É uma capilaridade inédita para o órgão.
Onde e por quê
As cidades escolhidas têm motivos claros. Campo Grande e Foz do Iguaçu são rotas conhecidas de tráfico e crimes transfronteiriços. Recife tem forte presença de facções criminosas.
Rio de Janeiro e São Paulo concentram a maior parte das instituições financeiras e do volume de transações. Belém completa a lista, fechando um eixo de atenção na região Norte.
Em algumas, como Rio e São Paulo, o BC já tem sede. Em outras, como Foz do Iguaçu, será uma representação totalmente nova. A unidade do Rio, inclusive, atende a uma determinação judicial específica do ministro Alexandre de Moraes.
Investimentos e expectativas
A implementação física desses seis escritórios em 2026 tem um custo inicial estimado em R$ 2,49 milhões. A manutenção anual, incluindo salários e despesas, deve girar em torno de R$ 30,8 milhões.
A expectativa interna é de grandes ganhos. Melhora na análise de dados, na governança e na construção de uma política nacional integrada. A renovação também passa por um novo sistema de relatórios com uso de inteligência artificial.
O comando do Coaf, hoje com o ex-diretor da Polícia Federal Ricardo Saadi, aguarda os investimentos prometidos. A aposta é que uma estrutura mais robusta e presente ajude a cortar pela raiz os financiamentos do crime.
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