As contas externas do Brasil acabaram de registrar o maior rombo anual em mais de uma década. O número, divulgado pelo Banco Central, não é apenas um dado técnico. Ele reflete um momento em que o país está gastando muito mais com o mundo lá fora do que está recebendo dele. Para entender o que isso significa na prática, basta imaginar as finanças de uma casa: entram e saem recursos o tempo todo, e o desafio é equilibrar essa conta.
O déficit em transações correntes chegou a 68,8 bilhões de dólares em 2025. Esse valor supera o de 2024 e é o maior desde 2014. O indicador funciona como um termômetro da saúde financeira do país em suas relações internacionais. Ele soma tudo o que compramos e vendemos, os serviços que contratamos e até os lucros que empresas estrangeiras remetem para suas matrizes.
Em resumo, o Brasil mandou mais dinheiro para fora do que recebeu. Esse movimento envolve desde a compra de máquinas e produtos importados até o pagamento por fretes, seguros e viagens internacionais. Quando essa conta fica muito tempo no vermelho, pode gerar desequilíbrios que afetam toda a economia, influenciando o câmbio e a inflação, por exemplo.
Por que o déficit aumentou tanto?
O principal motivo foi a redução no superávit da nossa balança comercial. Em 2025, o país exportou 59,9 bilhões de dólares a mais do que importou. Parece um número alto, mas ele era ainda maior no ano anterior. A queda nesse desempenho significa que as vendas ao exterior não cresceram na mesma proporção que nossas compras de produtos de outros países.
Além disso, outras duas contas pesaram no bolso. A conta de serviços, que inclui gastos com transporte internacional e seguros, teve um déficit de 52,9 bilhões de dólares. Já a conta de renda primária, formada por remessas de lucros e dividendos de multinacionais, se manteve fortemente negativa. Esse item sozinho representou um rombo de 81,3 bilhões de dólares.
O Banco Central explica que isso é comum em períodos de expansão econômica. Quando a atividade interna aquece, as empresas precisam importar mais insumos e máquinas. As famílias, com mais renda, também acabam consumindo mais produtos e serviços do exterior. É um ciclo natural, mas que precisa ser acompanhado de perto para não sair do controle.
O outro lado da moeda: investimentos e gastos
Enquanto a conta corrente ficou no vermelho, o investimento estrangeiro direto apresentou um cenário positivo. Empresas de outros países injetaram 77,6 bilhões de dólares no Brasil em 2025, um valor maior que o do ano anterior. Esse dinheiro é crucial, pois ajuda a financiar parte do déficit externo, trazendo novos negócios e gerando empregos.
Por outro lado, os brasileiros também gastaram mais fora do país. As despesas com viagens internacionais e compras no exterior somaram 21,7 bilhões de dólares, a maior marca desde 2014. Esse movimento foi impulsionado por uma combinação de fatores: crescimento da renda, expansão do PIB e uma moeda nacional mais valorizada frente ao dólar.
Mesmo com o aumento do IOF sobre operações de câmbio, o ritmo de gastos não desacelerou. As pessoas continuaram viajando e consumindo, arcando com custos mais altos por passagens, hospedagens e produtos. É um reflexo claro de como o poder de compra do brasileiro se comporta quando a economia dá sinais de melhora.
E o que esperar para o futuro?
Para 2026, o Banco Central projeta uma melhora nesse quadro. A expectativa é de que o déficit nas contas externas caia para cerca de 60 bilhões de dólares. O crescimento das exportações, especialmente de commodities como o petróleo, deve ser um fator importante para essa recuperação. A ideia é que as vendas ao exterior ganhem novo fôlego.
Além disso, espera-se uma estabilização nas importações e um recuo nos déficits das contas de serviços e renda. Um ritmo mais lento da atividade econômica doméstica pode contribuir para esse reequilíbrio. São projeções que indicam um caminho de ajuste, mas que dependem de vários fatores, tanto dentro quanto fora do país.
Um ponto positivo veio do turismo. O Brasil registrou um recorde nos gastos de turistas estrangeiros, que injetaram 7,8 bilhões de dólares na economia em 2025. O país recebeu quase 9,3 milhões de visitantes do exterior, um movimento que ajuda a compensar, em parte, os gastos dos brasileiros no exterior. É um sinal de que o país segue sendo um destino atraente.
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