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O Recado da Carapuça de Exu

Existe uma história antiga, da tradição de Ifá, que fala sobre as muitas faces da verdade. Ela nos chega através dos versos sagrados revelados pelo sábio Orunmilá. Nesse universo, um personagem fundamental é Exu, o mensageiro, a força do movimento e da transformação. Ele é aquele que, com inteligência afiada, coloca à prova a rigidez do nosso pensamento.

Certa vez, Exu decidiu testar dois grandes sábios que se vangloriavam de conhecer a verdade absoluta sobre todas as coisas. O encontro aconteceria no dia do mercado, um local cheio de vida, movimento e encontros. Antes do evento, ele lançou um desafio aparentemente simples aos dois conhecedores. A pergunta era direta: de que cor seria o filá, o gorro que ele usaria na cabeça naquele dia?

Os estudiosos, cada um de um lado do mercado, aguardaram confiantes. Eles acreditavam piamente em sua própria percepção e sabedoria. Quando Exu finalmente apareceu, caminhando entre as barracas, a surpresa foi total. O resultado do desafio mostrou que a realidade raramente é um ponto fixo, mas depende do lugar de onde se observa.

De um lado do caminho, os que olhavam pela direita juram de pés juntos que o gorro era preto. Do outro lado, os que observavam pela esquerda afirmavam, com igual convicção, que a cor era vermelha. A discussão se acirrou, pois cada parte tinha a prova dos seus próprios olhos. Nenhum dos sábios considerou que o outro pudesse ter uma visão diferente e igualmente válida do mesmo objeto.

A carapuça de Exu, em um truque divino, era vermelha de um lado e preta do outro. A verdade, portanto, era dupla e dependia da perspectiva. Enquanto os dois homens discutiam furiosamente, cegos por sua própria certeza, Exu seguiu seu caminho. Sua missão era outra: encontrar um bode para o ritual, cumprindo seu papel no ciclo de oferendas e renovação das energias.

A lição que fica é profunda e serve para muito mais do que histórias mitológicas. Quantas vezes nós nos apegamos a uma única versão dos fatos, acreditando ser a única correta? A narrativa nos convida a questionar nossas certezas mais sólidas. Antes de arrotar sentenças definitivas, vale a pena se mover e enxergar o outro lado da questão.

Esse mito foi brilhantemente recriado pelo escritor e pesquisador Alberto Mussa em seu livro “Elegbara”. Num dos contos, “Os sábios de Tombuctu”, ele traz esse enigma para um contexto literário fascinante. A obra toda gira em torno de um questionamento essencial, que ecoa a pergunta de Exu: como podemos dizer que dominamos a verdade se não somos capazes de concordar sobre a cor de um simples gorro?

Escutar essa lição é um exercício de humildade intelectual. É abrir espaço para o diálogo e para a complexidade do mundo. As verdades absolutas, por mais confortáveis que pareçam, podem nos paralisar. Elas nos impedem de ver a riqueza dos detalhes e de entender a dinâmica da vida, que está sempre em transformação.

Enquanto os sábios brigavam, a vida seguia. Os atabaques tocavam no ritual, o bode era preparado e sua carne, digerida, fortalecendo o axé da comunidade. A função de Exu, ao gerar aquela confusão inicial, era justamente desmontar as certezas estagnadas. Só assim era possível seguir adiante, com mais sabedoria e menos arrogância, na grande dança da existência.

A história não oferece uma resposta única, mas um caminho: o da dúvida consciente e do respeito ao ponto de vista alheio. É um convite para dançar na roda da vida com mais leveza, longe do fogo paralisante das convicções cegas. Afinal, o mundo é feito de encruzilhadas, e em cada uma delas, uma nova perspectiva pode estar esperando para ser vista.

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