Às oito da noite, na Vila Maria Alta, zona norte de São Paulo, a rotina de Regiane Gomes de Souza vira uma corrida. Trabalhadora do setor de vendas, ela precisa antecipar todas as tarefas domésticas antes que a água suma. O racionamento não é novidade, mas em dezembro a situação apertou. A torneira da pia e o banheiro ficavam secos ao mesmo tempo, e a caixa d’água esvaziava por completo.
Escovar os dentes ou tomar um banho ao final do dia tornou-se um desafio logístico. Sem água no período noturno, a família precisou se adaptar de qualquer jeito. A solução foi o improviso: guardar água em jarras para a higiene básica e encher baldes para dar descarga. Tudo precisa ser planejado com horas de antecedência.
A falta d’água se tornou mais intensa no começo do mês passado. A casa, onde vivem quatro pessoas, incluindo uma criança, enfrentou cortes intermitentes. A família se viu forçada a reorganizar a rotina: jantar mais cedo, lavar a louça rapidamente e até estocar água na geladeira. A sensação é de total desamparo, agravada pela dificuldade de obter respostas da empresa responsável.
A gestão deliberada da escassez
O que Regiane enfrenta não é um problema isolado. Especialistas apontam que se trata de uma gestão planejada da oferta de água. A Sabesp estaria reduzindo deliberadamente o fornecimento por até dez horas diárias em certas áreas. Quem mais sofre são os moradores de regiões mais altas e afastadas dos grandes reservatórios.
Mesmo quando o abastecimento é reestabelecido, a pressão segue insuficiente. Muitas pessoas recebem apenas um fiozinho de água, volume que não chega a encher uma torneira de forma útil. A crise revela uma clara injustiça social, pois os cortes não são democráticos.
A seletividade beneficia áreas de maior poder aquisitivo, onde o fornecimento continua estável. Para a empresa, após a privatização, o foco é maximizar o lucro, e garantir água a grandes consumidores mantém a arrecadação. Enquanto isso, as prefeituras têm sido omissas diante do problema que aflige principalmente as periferias.
As regiões mais castigadas
Locais com altitude elevada, como partes do município de Mauá, sofrem especialmente. Nessas áreas, a garantia de abastecimento se tornou muito difícil. O calor intenso dos últimos dias só piorou a sensação de desconforto e a privação diária.
Bairros periféricos da capital, como Brasilândia, Jardim Ângela, Grajaú e Guaianases, também acumulam queixas. Em Osasco, na região metropolitana, a reclamação é a mesma: falta d’água constante. O problema é generalizado nas bordas da metrópole, atingindo famílias que já lidam com outras formas de precariedade.
Na zona oeste, em bairros como o Butantã, a professora Maria Cristina relata que os cortes são uma constante desde o ano passado. A rotina virou um jogo de adivinhação, com horários de abastecimento imprevisíveis. Em muitos dias, a água simplesmente não vem.
O paradoxo do custo mais alto
A imprevisibilidade trouxe um agravante: o aumento do valor da conta. Maria Cristina conta que, nos períodos de maior escassez, a conta de água subiu consideravelmente. O paradoxo é cruel: pagar mais por um serviço que não funciona. Com criança pequena em casa, a necessidade é ainda mais urgente.
Ela relata que a família ficou sem água na véspera de Natal e também na de Ano Novo, momentos em que a falta é mais sentida. A necessidade de água para cozinhar, beber e higienizar torna qualquer interrupção um transtorno grave. A situação só melhorou um pouco após as festas, mas a insegurança permanece.
Para essas famílias, a adaptação é constante. Tudo é programado: banhos mais cedo, água estocada em baldes, louça lavada imediatamente. A rotina é ditada pelo ritmo dos cortes, impactando profundamente a qualidade de vida e o bem-estar de todos na casa.
Um futuro ainda mais seco
Os indicadores técnicos não trazem otimismo. Os reservatórios que abastecem a Grande São Paulo, como o Sistema Cantareira, estão com níveis preocupantes. O período de redução de pressão, atualmente de dez horas, pode ser ampliado para até 16 horas diárias. Isso significaria o caos para milhares de pessoas.
A perspectiva de um agravamento torna a vida ainda mais angustiante para quem já sofre hoje. Regiane já incorporou o “caos” ao seu planejamento doméstico, reutilizando a água da máquina de lavar para limpar o quintal e dar descarga. A família esgota rapidamente a reserva da caixa, ficando sem água nos cômodos mais importantes.
A luta diária de quem vive no lado seco da maior cidade da América Latina é um retrato de uma crise administrada. Enquanto isso, as famílias seguem esticando cada gota, tentando manter uma rotina mínima em meio à incerteza. A água, essencial para a vida, tornou-se um recurso de planejamento de sobrevivência.
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