O Flamengo viveu um sábado de protestos. Moradores do tradicional bairro da zona sul do Rio se reuniram para contestar a derrubada de árvores no terreno do antigo Colégio Bennett. O local está sendo preparado para a construção de dois novos prédios residenciais.
As imagens que circularam nas redes sociais mostraram a transformação radical do espaço. Onde antes havia uma área verde densa, agora surgem os primeiros sinais das obras. Essa mudança brusca no visual do bairro acendeu o sinal de alerta entre os residentes.
A mobilização foi organizada pela associação local de moradores. Eles ocuparam parte da rua Marquês de Abrantes com faixas contrárias ao projeto e ao prefeito Eduardo Paes. O ponto central da discussão vai além da perda das árvores.
A sombra de um decreto
A polêmica ganha um contorno legal importante. O terreno é protegido por um decreto municipal assinado pelo próprio Paes em 2014. A legislação tombou o antigo Pavilhão São Clemente, a cavalariça, a guarita e o gradil que cerca a área.
O texto do decreto é claro sobre o destino da vegetação. Ele afirma que as árvores do local estariam imunes ao corte. Qualquer alteração no espaço precisa, por lei, da aprovação do conselho municipal de patrimônio. A aparente contradição entre a lei e a ação move a revolta dos moradores.
O Ministério Público decidiu intervir. Foi instaurado um inquérito para investigar se a derrubada das árvores violou a proteção legal do local. O objetivo é apurar a legalidade do ato diante das regras de preservação existentes.
A justificativa da prefeitura
Em resposta, a prefeitura apresentou sua versão dos fatos. Afirmou que todas as licenças necessárias foram concedidas por órgãos municipais, estaduais e federais. A lista inclui secretarias de urbanismo, patrimônio e até o conselho regional de engenharia.
O projeto prevê medidas compensatórias ambientais. A promessa é o plantio de centenas de mudas nativas no Flamengo e em bairros vizinhos, como Botafogo e Laranjeiras. A ideia é tentar compensar a perda com uma nova distribuição de verde pela região.
Dentro do terreno, nove árvores nativas serão preservadas. A remoção atingiu principalmente espécies exóticas, segundo a prefeitura. O gradil histórico será reinstalado após o fim da obra, mantendo parte da fachada original do local tombado.
O impasse que permanece
O conflito no Flamengo reflete um desafio comum nas grandes cidades. De um lado, a pressão por novos empreendimentos habitacionais. De outro, a vontade de preservar a história e o meio ambiente dos bairros. Encontrar um equilíbrio justo raramente é simples.
Para os moradores, a autorização não resolve a questão de fundo. Eles veem a perda de um pedaço da identidade visual e da qualidade de vida do bairro. A sombra e o frescor proporcionados por tantas árvores maduras são insubstituíveis a curto prazo.
A esperança agora está nas investigações em andamento. Enquanto as obras seguem, a comunidade aguarda os desdobramentos jurídicos. O caso deve alimentar o debate sobre desenvolvimento urbano e memória por um bom tempo.
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