O cardeal italiano Pietro Parolin, um dos homens mais poderosos do Vaticano, fez uma movimentação surpreendente no final do ano passado. Segundo informações obtidas pelo jornal The Washington Post, ele procurou diplomatas americanos na Santa Sé com um pedido específico. O objetivo era sondar a possibilidade de um asilo na Rússia para o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
A conversa teria acontecido na véspera de Natal, em um encontro com o embaixador dos Estados Unidos na Santa Sé, Brian Burch. Parolin, que já foi embaixador do Vaticano em Caracas, queria entender os planos americanos para a Venezuela. Ele demonstrou preocupação com uma possível mudança de regime violenta e defendeu uma solução pacífica para a crise.
O Vaticano confirmou que houve negociações no período, mas expressou decepção com o vazamento de uma conversa confidencial. A instituição afirma que os relatos não refletem com precisão o conteúdo discutido. O Departamento de Estado americano e o governo russo optaram por não comentar as revelações.
Uma mediação em meio a tensões globais
Durante o encontro, Parolin teria questionado se os Estados Unidos realmente buscavam derrubar Maduro. Ele insistiu na necessidade de uma saída negociada, admitindo que o líder venezuelano precisava deixar o poder. Para facilitar esse processo, o cardeal apresentou uma proposta concreta: a Rússia estaria pronta para receber Maduro e oferecer-lhe asilo político.
Parolin pediu paciência aos americanos, argumentando que uma ação abrupta poderia causar instabilidade e derramamento de sangue na Venezuela. Sua mediação não era apenas um gesto humanitário. Documentos citados pelo jornal indicam que ele mencionou um rumor interessante. A Venezuela teria se tornado uma "peça fundamental" nas negociações entre Rússia e Ucrânia.
Segundo essa visão, Moscou estaria disposta a "abrir mão" da Venezuela se obtivesse acordos favoráveis no conflito com Kiev. A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, realinhou as relações de poder globais. Analistas sugerem que a Rússia, focada no front europeu, reduziu seu apoio a Caracas nos últimos anos.
Os obstáculos por trás da proposta
A oferta de asilo, portanto, parecia uma estratégia para destravar as conversas sobre a Ucrânia. Parolin teria dito que Maduro parecia disposto a renunciar após as eleições de 2024, contestadas pela comunidade internacional. Naquele momento, porém, ele foi convencido a permanecer no cargo por figuras próximas ao seu governo, como o ministro do Interior Diosdado Cabello.
O cardeal se mostrou frustrado com a falta de clareza dos planos finais dos Estados Unidos. Ele pediu que Washington estabelecesse um prazo para a transição e oferecesse garantias à família de Maduro. A intenção era assegurar uma saída ordenada, evitando um banho de sangue. No entanto, os eventos tomaram um rumo diferente poucos dias depois.
Forças americanas bombardearam alvos na Venezuela e capturaram Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O casal agora aguarda julgamento em Nova York, enfrentando acusações graves de narcoterrorismo. A intervenção militar encerrou abruptamente qualquer chance de um exílio negociado.
As razões de uma recusa
Por que Maduro teria recusado a oferta de asilo antes da captura? As informações apontam para uma questão prática: dinheiro. Acredita-se que o líder venezuelano possua vastas reservas financeiras em paraísos fiscais, fruto do comércio de ouro do país. Esses recursos estariam bloqueados ou de difícil acesso se ele se mudasse para a Rússia.
As sanções internacionais contra Moscou também criam um ambiente financeiro complexo. Viver na Rússia significaria perder o controle sobre boa parte de sua fortuna pessoal. Para um homem acostumado ao poder e a recursos abundantes, essa era uma barreira difícil de superar. A proposta, apesar de politicamente viável, falhava no aspecto econômico.
Parolin, visto como um forte candidato para suceder o papa Francisco um dia, mostrou seu lado de negociador experiente. Sua atuação revela como a Santa Sé tenta navegar em conflitos geopolíticos complexos. A história, porém, lembra que mesmo os planos mais bem intencionados podem esbarrar em realidades duras e interesses pessoais.
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