Você sempre atualizado

Como os EUA inventaram um cartel que não existe para ação militar contra Maduro

Você já ouviu falar no tal “Cartel de los Soles”? Nos últimos anos, esse nome ganhou as manchetes mundo afora, sempre ligado ao governo venezuelano. Autoridades norte-americanas o descrevem como uma poderosa organização narcoterrorista. Mas e se essa entidade, na verdade, nunca tivesse existido de fato?

A expressão surgiu em Caracas décadas atrás, muito antes da era Chávez. Era uma gíria local para se referir a generais corruptos, que enriqueciam explorando a população. O “sol” do nome vem da insígnia bordada nos uniformes de altos oficiais. Especialistas explicam que, embora haja militares envolvidos com drogas, não se trata de uma estrutura organizada.

Apesar disso, o termo foi elevado a uma realidade concreta por decisões oficiais dos Estados Unidos. Tudo começou a ganhar corpo durante o primeiro governo de Donald Trump. A narrativa foi se fortalecendo em discursos e documentos, até se tornar um pilar central de acusações internacionais contra a Venezuela.

A construção oficial de um mito

Em março de 2020, o Departamento de Justiça norte-americano formalizou a história. Num grande indiciamento, Nicolás Maduro e catorze outros membros de seu governo foram acusados de liderar o “Cartel de los Soles”. O documento descrevia o grupo como uma organização narcoterrorista que usava a cocaína como arma contra os Estados Unidos.

O nome do suposto cartel aparecia trinta e duas vezes naquela acusação. Marco Rubio, secretário de Estado, resumiu a tese dizendo que se tratava de “uma organização criminosa que se fantasia de governo”. Essa visão, porém, não encontra respaldo nas definições legais internacionais de crime organizado.

Para especialistas, equiparar um governo a um cartel é um exagero sem precedentes. Seria como afirmar que um governo estadual no Brasil é, por si só, uma grande milícia. Ainda assim, essa ficção jurídica seguiu adiante e gerou consequências muito reais.

O cartel fictício vira ferramenta política

Baseado nessa acusação, o Departamento do Tesouro dos EUA designou oficialmente o Cartel de los Soles como uma organização terrorista global em julho de 2025. Essa medida permitiu impor sanções econômicas severas, como o congelamento de bens. Logo depois, o Departamento de Estado fez o mesmo, incluindo o grupo em sua lista de terroristas estrangeiros.

Essa designação foi um caso único. O tal cartel não consta em nenhuma lista similar de outros países, nem nos relatórios das Nações Unidas sobre drogas e crime. Foi justamente essa classificação como entidade terrorista que, segundo a legislação americana, abriu caminho para ações militares mais diretas.

Vários países da América Latina, como Equador, Paraguai e Argentina, seguiram o exemplo norte-americano e também designaram o grupo fictício como terrorista. Uma narrativa criada em Washington thus ganhou força e se espalhou pelo continente, legitimando uma postura cada vez mais agressiva.

A tese desmorona após o ataque

A situação mudou de figura depois do ataque à Venezuela e da captura de Nicolás Maduro, em janeiro deste ano. Imediatamente após esses eventos, o governo Trump apresentou uma nova acusação criminal contra o líder venezuelano. O curioso é que o documento judicial recuou drasticamente na antiga narrativa.

O novo indiciamento, preparado pelo distrito sul de Nova York, menciona o Cartel de los Soles apenas duas vezes. E o descreve de forma bem diferente: como um “sistema de patronagem administrado por aqueles no topo”, e não mais como uma organização estruturada. A mudança de tom foi notada pela imprensa internacional.

Analistas veem nisso um recuo tático. Juridicamente, seria impossível provar em tribunal a existência de uma entidade que nunca foi documentada de fato. As definições da ONU para crime organizado exigem evidências de estrutura, hierarquia e atividades contínuas, algo que nunca se apresentou para o “cartel”.

O arquiteto por trás da narrativa

A pessoa que supervisionou a acusação original de 2020 foi o procurador Emil Bove III. Ele era conhecido por seus casos contra narcotraficantes, incluindo a condenação dos sobrinhos de Maduro. Sua carreira tomou um rumo político notável após deixar o cargo.

Em 2023, Bove tornou-se advogado pessoal de Donald Trump, defendendo-o em casos judiciais complexos. Com a volta de Trump à presidência em 2025, sua influência cresceu rapidamente. Ele foi nomeado para o número dois do Departamento de Justiça e, depois, promovido a juiz federal vitalício.

Sua trajetória mostra como a construção do caso contra Maduro esteve intimamente ligada a figuras-chave do cenário político norte-americano. A nomeação para um cargo tão importante foi vista por muitos como uma recompensa por serviços prestados, incluindo a defesa da tese do cartel.

E agora, o que resta?

Para observadores, o recente recuo do Departamento de Justiça expõe a fragilidade do caso. As acusações originais se apoiavam em três pilares: Maduro como narcotraficante, como terrorista e como líder de uma organização criminosa. O último pilar, o do cartel, era considerado o mais “forte” da narrativa.

Se nem ele se sustenta mais, a credibilidade das outras acusações também fica abalada. Especialistas duvidam da conexão direta de Maduro com grupos como o Tren de Aragua, outro ponto frequentemente citado. A comunidade de inteligência dos EUA teria sido pressionada a endossar essas ligações.

Ainda assim, a designação do Cartel de los Soles como organização terrorista pelos Departamentos do Tesouro e de Estado permanece em vigor. O governo Trump não admitiu que se tratava de uma ficção. Reverter essa classificação seria um constrangimento público, após tantas ações tomadas em seu nome.

Talvez o Cartel de los Soles entre para a história como um caso único. A única entidade fictícia a alcançar o status de grupo terrorista global, usado como justificativa para uma política externa intervencionista. Sua trajetória revela como narrativas podem ser fabricadas e, depois, adaptadas conforme a conveniência do momento.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.