Imagina abrir o prato e encontrar larvas, cabelos ou comida praticamente crua. Essa é a realidade que muitas mulheres presas em Pernambuco enfrentam diariamente. Elas relatam que as refeições, quando não estão estragadas, chegam sem sabor e malcozidas, obrigando-as a improvisar para conseguir comer algo minimamente aceitável.
O problema vai além do gosto. A comida muitas vezes apresenta riscos à saúde, com insetos e impurezas. Com medo de represálias, várias detentas evitam fazer queixas formais. Elas contam que, em muitos dias, preferem ficar sem comer ou sobreviver com biscoitos trazidos pelas famílias nos dias de visita.
A situação expõe uma grave violação de direitos básicos. O direito à alimentação adequada é negado, transformando a hora da refeição em um momento de apreensão e nojo. Essa realidade precária persiste há anos, sem sinais claros de melhoria por parte das autoridades responsáveis.
### A luta diária por uma refeição comestível
Márcia Felix, que passou sete anos no sistema prisional pernambucano, descreve cenas chocantes. Ela lembra de um cuscuz com larvas recém-nascidas flutuando no leite. Relembra também pedaços de galinha com penugens, que davam nojo só de olhar. Quando a comida não vinha estragada, chegava branca, sem cor e sem qualquer tempero.
Para tentar melhorar o que era servido, as mulheres criaram a “perereca de cadeia”. O artefato caseiro, feito com fios e baterias, aquece água para cozinhar os alimentos no vapor, num método similar ao banho-maria. Com ele, desfiavam o frango duro e acrescentavam cebola ou tomate, tentando dar algum sabor à refeição.
No entanto, a prática é proibida e considerada risco de incêndio. Quem era flagrada usando o dispositivo acabava punida. Márcia foi descoberta e passou dez dias no chamado “castigo”, uma sala de isolamento total. Lá, as refeições continuavam ruins e eram passadas por uma abertura na porta, sem qualquer contato humano.
### O custo mínimo que reflete na qualidade
Um estudo do Conselho Nacional de Justiça revela um dado alarmante. Pernambuco gasta apenas R$ 176 por mês com a alimentação de cada pessoa presa. Esse valor é o mais baixo do país e está muito aquém do custo de uma cesta básica, estimado em R$ 320 na época da pesquisa.
Esse orçamento apertado se reflete diretamente no prato. Enquanto isso, o estado já foi condenado internacionalmente por maus-tratos na população carcerária. Atualmente, quase mil mulheres estão encarceradas em celas físicas no estado. A grande maioria se declara preta ou parda.
Informações inacreditáveis como estas mostram a distância entre o que é determinado pela lei e a realidade. Uma ativista que visita as unidades relata uma diferença gritante. A comida servida aos funcionários é de outra qualidade, enquanto as detentas recebem alimentos crus e cheios de impurezas, como batata-doce cozida apenas em água.
### Um sistema que falha nacionalmente
O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. O sistema enfrenta problemas crônicos, e a alimentação precária é uma das queixas mais frequentes em todo o país. Um relatório assinado por diversas organizações de direitos humanos classifica a situação como “pena de fome”.
Dados de inspeções mostram que mais de 90% dos presídios têm comida de baixa qualidade. Em muitos, há proteína insuficiente e impurezas nos alimentos. Outro problema grave é o jejum compulsório. Em mais da metade das unidades, o intervalo entre a última refeição da noite e a primeira da manhã pode ultrapassar 14 horas.
Especialistas afirmam que a questão não é necessariamente falta de verba, mas negligência pura e simples. Quando uma pessoa é presa, ela deve perder apenas a liberdade, e não o direito a uma alimentação que preserve sua saúde e dignidade. A omissão do estado transforma a sentença judicial em uma condenação adicional à fome e ao descaso.
Tudo sobre o Brasil e o mundo mostra que direitos básicos não deveriam ser privilégios. A comida, insípida e precária, simboliza o abandono de quem está sob custódia do estado. Enquanto as denúncias se acumulam, a espera por um prato simples e digno parece uma pena extra, sem data para terminar.
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