Há três anos, o Brasil vivia um dia que parecia saído de um filme distópico. Uma multidão invadiu os corredores do poder, misturando fúria com uma estranha euforia festiva. Adultos de todas as idades agiam como crianças sem supervisão, convencidos de que eram heróis nacionais. Eles fizeram história, sim, mas pelo lado mais triste e criminoso possível.
A cena era de destruição pura: patrimônio público depredado, salões de decisão vandalizados, um verdadeiro ataque ao símbolo da democracia. Agiam com a certeza tola de quem acha que um golpe de Estado é um jogo sem consequências. Acreditavam em sua própria impunidade. Quando a realidade bateu à porta, a desculpa foi a mesma de sempre: culpar “infiltrados”. A narrativa não colou, e a brincadeira saiu caríssima.
O preço foi pago por todo o país. Trinta e seis meses depois, muitos daqueles que atacaram as instituições seguem pensando da mesma forma. No caminho, celebraram a eleição de Donald Trump, estenderam bandeiras estrangeiras em solo brasileiro e até aplaudiram medidas que prejudicaram a economia nacional. Paralisaram o país por meses, travando debates urgentes para forçar agendas de anistia e privilégios.
Essa vertente política tem um custo altíssimo para qualquer nação. Ela paralisa o funcionamento do Estado para impor caprichos e delírios de um grupo. O objetivo final nunca é o bem comum, mas a manutenção de privilégios e uma visão distorcida de dominação. É um processo trabalhoso, custoso e, em última análise, cruel para a população que sofre as consequências.
A euforia não parou por aqui. Recentemente, parte dessa mesma turma vibrou com a intervenção militar na Venezuela. Ajustaram a narrativa como se a motivação fosse nobre, um combate a uma ditadura. Ignoraram convenientemente que o presidente americano envolvido é aliado histórico de vários ditadores pelo mundo. O interesse real sempre foi outro.
O tom debochado e a fala desdenhosa já deixavam claro o objetivo: apropriar-se das riquezas do país vizinho. A celebração aqui era carregada de um desejo oculto, a esperança de que o mesmo destino atingisse um governo brasileiro que eles chamam de ditador. Fecharam os olhos para um fato óbvio: nesse jogo de poder, eles próprios seriam peões descartáveis.
A história recente mostra isso. Figuras opositoras em outros países, mesmo as premiadas internacionalmente, frequentemente são abandonadas quando não servem mais aos interesses dos poderosos. O apoio externo é condicional e volátil. O resultado é um processo extenso e mortal, suportado pelos povos das Américas, fruto do ressentimento e do desejo de voltar a um passado que não existe mais.
No centro dessa teia está uma figura pública muito específica. O atual presidente dos Estados Unidos personifica uma extrema direita que age com a imaturidade de um jardim de infância. É um misto de mesquinharia, crueldade e interesse próprio elevado à potência máxima. Seu discurso é uniforme no desprezo.
Para ele, não há nuance ou lado certo. Seja um manifestante do oito de janeiro ou um cidadão contrário a esses métodos, a classificação é a mesma. Em um comentário recente sobre manifestantes venezuelanos, ele resumiu sua visão de mundo. Chamou-os de “a bagunça” e “as pessoas mais feias” que já viu.
A frase revela a lógica por trás de tudo. Nações como Venezuela, Brasil e Colômbia são vistas apenas como um aglomerado de gente indesejada sentada sobre recursos valiosos. Os “bonitos”, em sua visão, são aqueles que devem tomar as rédeas. É uma política que reduz pessoas e países a meros obstáculos ou pilhagens em um jogo de poder global.
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