O ano começa e, com ele, a velha pressão do tempo. As promessas de ano novo muitas vezes não vão adiante. Mas algumas ações, pequenas ou grandes, podem realmente deixar marcas permanentes. Em 2026, uma dessas marcas pode ser a homenagem pública a uma figura essencial da cultura carioca e brasileira.
Estamos falando de Tata Tancredo, um religioso de matriz africana. Foi ele quem ajudou a popularizar a tradicional oferenda a Iemanjá nas praias no Réveillon. Essa celebração, nascida nos anos 50 e 60, recentemente foi reconhecida como a maior festa de Ano Novo do mundo. A história dele se conecta diretamente com a identidade da cidade.
Nos últimos anos, um debate importante ganhou força no Brasil. Por que tantos monumentos e nomes de ruas ainda homenageiam figuras ligadas à colonização violenta e à escravidão? A pergunta gerou um movimento por mais representatividade nos espaços públicos. Em Belo Horizonte, por exemplo, agora há estátuas de Lélia Gonzalez e Carolina Maria de Jesus.
O último Réveillon trouxe essa discussão para a orla do Rio. Um líder religioso, o babalaô Ivanir dos Santos, fez um questionamento educado à prefeitura. Ele perguntou por que as religiões de matriz africana, que criaram a festa na praia, não tinham o mesmo reconhecimento oficial durante a celebração. Outros grupos religiosos contavam com estruturas dedicadas.
A pergunta, feita com cortesia, provocou uma reação desproporcional do prefeito. Ele se declarou chocado com o que chamou de preconceito “dessa gente”. A frase causou indignação. A situação revela uma resistência em aceitar demandas legítimas por igualdade. Questionar não é um ataque, mas um pedido de respeito pela própria tradição.
Diante da polêmica, dois jornalistas tiveram uma ideia poderosa. Aydano André Mota e Flávia Oliveira começaram a mobilizar apoio para erguer uma estátua de Tata Tancredo na orla carioca. A proposta é mais do que uma simples homenagem. É um ato de correção histórica e um símbolo de resistência cultural.
Essa história nos lembra de lutas muito mais antigas. Em 1840, um anúncio de jornal no Rio pedia a captura de uma mulher escravizada chamada Maria Thereza. Ela havia fugido levando um pacote de roupas. O texto revela muito sobre a época. A dona protestava usar “todo o rigor da lei” contra quem a abrigasse.
O anúncio dizia que Maria Thereza estava doente e usava remédios. Mas ela acreditava que sua “moléstia” não seria curada por um médico. Há uma suspeita no texto: a de que ela foi “seduzida, a título de se curar de feitiços”. Ela buscava um tratamento espiritual que a medicina da época, cruel e ineficaz, não oferecia.
Maria Thereza sabia dos riscos. Ela via pelas ruas as marcas terríveis do castigo nos corpos de outros escravizados. Mesmo assim, fugiu com seus companheiros. O anúncio a procurava por seu “valor” monetário, não por sua humanidade. Sua história é um testemunho de fé e de busca por autonomia física e espiritual.
“Essa gente”, termo usado de forma pejorativa hoje, é a mesma que sobreviveu a séculos de violência. A possível estátua de Tata Tancredo no cartão-postal mais famoso do Brasil não será um monumento à dor. Será um símbolo da vitória sobre o esquecimento e sobre a tentativa constante de silenciar vozes que insistem em existir.
A imagem dele na praia será uma lembrança viva de uma cultura que resiste e se renova. É sobre honrar quem construiu tradições que hoje nos definem. É sobre olhar para o futuro sem apagar as raízes. A homenagem fecha um ciclo, trazendo do passado uma figura fundamental para o cenário cultural do presente.
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