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Entidades pedem que Anvisa suspenda agrotóxicos após novas descobertas científicas

Três importantes organizações da sociedade civil estão pedindo à Anvisa para dar uma pausa na venda de três agrotóxicos muito usados no país. A solicitação envolve o glifosato, a atrazina e o alacloro, produtos comuns nas lavouras brasileiras. O pedido formal foi feito pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos, pela Fiocruz e pelo Idec no fim do ano passado.

O motivo central é sério: uma pesquisa científica crucial sobre o glifosato, que servia de base para as autoridades há mais de 20 anos, teve sua credibilidade abalada. Descobriu-se que funcionários da Monsanto, fabricante do produto, participaram da elaboração do estudo sem que isso fosse divulgado. O editor da revista científica que publicou o trabalho admitiu que a falta de clareza compromete a integridade das conclusões.

Esse estudo problemático foi justamente um dos pilares para a manutenção da liberação do glifosato no Brasil em 2020. Além disso, em novembro de 2025, especialistas internacionais classificaram a atrazina e o alacloro como prováveis causadores de câncer em humanos. Diante disso, as entidades querem uma reavaliação urgente e a suspensão temporária do uso dessas substâncias.

Consumo atinge patamar histórico

Enquanto esse debate acontece, os números mostram que o uso de agrotóxicos no Brasil só cresce. Dados do Ibama referentes a 2024 revelaram um novo recorde na comercialização desses produtos. Foram vendidas 908 mil toneladas de ingredientes ativos, um salto de mais de 20% em relação ao ano anterior.

O campeão de vendas continua sendo o glifosato, com 231,9 mil toneladas comercializadas. Em segundo lugar aparece o mancozebe, que registrou um aumento significativo. É importante notar que os números são autodeclarados pelas empresas, podendo sofrer ajustes futuros.

Um dado que chama a atenção é que, entre os dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2024, seis são proibidos na União Europeia. A lista inclui o mancozebe, o acefato e a própria atrazina, um dos alvos do pedido de suspensão. O faturamento do setor se manteve na casa dos 110 bilhões de reais.

Liberação de novos produtos acelera

O ritmo de liberação de novos agrotóxicos também acelerou, acompanhando o crescimento do consumo. Em 2025, o país registrou outro recorde, com 725 novos produtos liberados para uso até o início de dezembro. Isso representa um aumento de quase 10% em relação a 2024, que já havia sido um ano recordista.

Esse cenário gera alerta entre especialistas e defensores da saúde pública. A assessora jurídica Jaquique Andrade, da organização Terra de Direitos, destaca que o mercado movimenta bilhões com apoio do Estado, enquanto a população arca com as consequências. A contaminação da água e dos alimentos e os casos de intoxicação, sejam agudos ou crônicos, são alguns dos efeitos.

Diante desse panorama, a implementação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) surge como uma medida considerada fundamental por entidades da área. O programa foi lançado pelo governo federal em meados do ano passado, buscando caminhos para reduzir a dependência desses químicos na agricultura.

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