A Rússia escolheu um momento bastante tenso para mostrar ao mundo sua nova arma mais poderosa. Logo depois de acusar a Ucrânia de um ataque à residência de Vladimir Putin e de questionar as conversas de paz, o governo russo divulgou as primeiras imagens do regimento equipado com o míssil Orechnik. A mensagem parece clara: é uma exibição de força, um recado direto aos adversários.
O contexto imediato ajuda a entender a jogada. Um dia antes, a Ucrânia havia negado veementemente qualquer envolvimento num suposto ataque com drones ao lago Valdai. O presidente Volodymyr Zelensky interpretou a acusação como uma manobra de propaganda. Segundo ele, o objetivo russo seria justificar futuros ataques a prédios governamentais em Kiev e minar as recentes negociações com os Estados Unidos.
O Kremlin, por sua vez, não deu trégua. Na manhã seguinte, reafirmou a autoria ucraniana no episódio e deixou claro que se reserva o direito de retaliação. Mais do que isso, anunciou o endurecimento da sua posição nas discussões sobre paz. A divulgação das imagens do míssil parece ser a primeira ação concreta nesse sentido, elevando o tom da retórica para o campo das ameaças militares tangíveis.
As imagens e a arma
As filmagens divulgadas pelo Ministério da Defesa russo mostram uma cerimônia em uma base não identificada na Bielorrússia, aliada de Moscou. Os veículos lançadores móveis aparecem trafegando por estradas florestais, operados por soldados russos. Curiosamente, o míssil em si, cujo nome significa “aveleira”, não é visto diretamente. A data real das gravações também não foi confirmada, criando um clima de desinformação estratégica.
O Orechnik é um míssil balístico de médio e longo alcance, uma arma temível. Seu raio de ação pode variar de 550 a 5.000 quilômetros, e ele foi projetado para cenários de guerra nuclear. Cada míssil pode carregar múltiplas ogivas independentes, capazes de liberar dezenas de submunições. Um teste contra a cidade de Dnipro, na Ucrânia, em novembro do ano passado, já havia demonstrado seu poderio destrutivo.
Naquele ataque a Dnipro, o que chamou a atenção foi o método. Não houve uma explosão tradicional de grande magnitude. O estrago foi causado pela força cinética pura do projétil, que reentrou na atmosfera a uma velocidade impressionante, cerca de onze vezes a velocidade do som. Contra uma arma com essas características, que desce do espaço a 13,5 mil km/h, a Ucrânia atualmente não possui nenhum sistema de defesa capaz de interceptá-la.
O significado estratégico
A implantação desse sistema na Bielorrússia é um movimento geopolítico calculado. Do território do aliado, o Orechnik poderia atingir qualquer capital europeia em poucos minutos. No entanto, seu uso contra a Ucrânia a partir dali não faria sentido logístico, já as distâncias seriam muito curtas para um míssil de tão longo alcance. O ataque a Dnipro em 2024, por exemplo, partiu de uma base na Rússia, a mais de 1.200 km da fronteira.
Um dos maiores pontos de interrogação é o tipo de ogiva que esses mísseis carregarão. Tanto a Rússia quanto a Bielorrússia se recusam a dizer se serão convencionais ou nucleares. Em 2023, Putin anunciou o envio de armas nucleares táticas para a ditadura vizinha, mas o processo permanece opaco. Não se sabe se elas equipam mísseis de curto alcance ou se são destinadas a aeronaves de ataque.
Essa ambiguidade é proposital e serve a dois objetivos principais. O primeiro é aumentar a pressão psicológica sobre a Ucrânia e seus aliados ocidentais, gerando incerteza e tensão. O segundo, e talvez mais relevante no momento, é pressionar os Estados Unidos. A Rússia deseja renegociar o tratado New START, que limita os arsenais nucleares estratégicos e expira em fevereiro.
O jogo nuclear mais amplo
A exibição do Orechnik se encaixa perfeitamente nessa estratégia de pressão. O presidente russo já fez uma proposta ao ex-presidente americano Donald Trump para estender o New START por um ano e trabalhar num novo acordo. Até agora, não houve resposta pública de Trump. A demonstração de força com um míssil de capacidade nuclear parece ser um lembrete do que está em jogo.
A história recente mostra que essas táticas podem ter resultados imprevisíveis. Em 2017, quando a Rússia desenvolveu um míssil que violava outro tratado da Guerra Fria, a resposta de Trump foi simplesmente abandonar o acordo. O risco de uma nova escalada descontrolada é real, especialmente num cenário de comunicação tão hostil entre as potências.
Rússia e Estados Unidos concentram sozinhos cerca de 90% de todas as ogivas nucleares do planeta, um arsenal que supera doze mil armas. A China aparece em um distante terceiro lugar, mas vem acelerando seu programa de modernização. Nesse jogo de alto risco, cada movimento como a divulgação de um novo míssil é uma jogada calculada, mas que carrega o peso de consequências globais.
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