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Vorcaro se reuniu com Gilmar e contratou seu então cunhado para temas de interesse no STF

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro se reuniu com o ministro do STF Gilmar Mendes em 11 de abril de 2024 para pedir seu voto favorável a uma questão bilionária envolvendo precatórios de usinas do setor sucroalcooleiro que ele adquiriu com deságio. A informação foi divulgada esta noite por Monica Bergamo, colunista da Folha.

O interesse de Vorcaro era usar o valor de face dos precatórios para engordar o balanço do seu banco. Vorcaro mantinha no Master carteira bilionária em precatórios, que são títulos de dívidas do governo. Na ocasião, o Supremo discutia, a pedido do governo Lula (PT), a validade de ações indenizatórias que perdeu, em sentenças transitadas em julgado, e que resultaram na emissão de títulos de dívida cujo pagamento vinha postergando, até que decidiu oficializar o calote com a chancela do STF.

Vorcaro também contratou o ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o Chiquinho Feitosa (Republicanos), por meio de uma outra empresa, e tratou com Gilmar de processos no Supremo, inclusive de relatoria do ministro, de quem era cunhado na época. A informação foi revelada pelo Blog do Fausto Macedo, do Estadão.

As conversas, extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro entre abril e novembro de 2024, mostram que Feitosa prestava “assessoria” e cobrava andamento de pautas de interesse do Banco Master. Gilmar Mendes votou contra os interesses do banco nos dois casos citados. Procurado, o ministro não se manifestou.

Chiquinho Feitosa é irmão da advogada Guiomar Feitosa, que foi casada com Gilmar até novembro de 2025. Os diálogos ocorreram enquanto o vínculo familiar ainda existia.

Contrato de R$ 500 mil mensais

Inicialmente, Feitosa negou ter trabalhado para o banco de Vorcaro. Confrontado com o contrato da Super Empreendimentos — empresa do banqueiro apontada pela PF como instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio —, admitiu a prestação de serviço “durante um curto período”. Disse que, na época, a empresa era vista como “idônea”.

Mensagens indicam remuneração de R$ 500 mil líquidos por mês, mais R$ 800 mil extras na primeira parcela. O operador Leonardo Palhares pediu confirmação a Vorcaro sobre o contrato; o banqueiro autorizou. A consultoria F&A, de Feitosa, aparece em lista de pagamentos enviada a Vorcaro.

Precatórios e vagas de medicina

Os dois temas tratados nas conversas foram:

  • Precatórios da Usina Agroindustrial Tabu (Paraíba), adquiridos por fundos do Master. Gilmar e outros ministros votaram contra os interesses do banco.

  • Ação sobre regras para abertura de cursos de medicina (ADC 81), de relatoria de Gilmar. O fundo Calêndula, ligado ao Master, financiava a mantenedora da Universidade Luterana do Brasil. O STF manteve a exigência de chamamento público prevista na lei do Mais Médicos — resultado que, indiretamente, não favorecia Vorcaro.

Em setembro de 2024, Feitosa prestou contas ao banqueiro sobre “precatórios” e “educação” e cobrou a assinatura do contrato: “estou 100% dedicado aos nossos assuntos”.

Intermediação de encontro

Em abril de 2024, Feitosa encaminhou a Vorcaro o contato de uma servidora ligada ao gabinete de Gilmar e um roteiro de reunião: primeiro um encontro a sós com o ministro e, em seguida, a entrada do diretor jurídico do Master, André Krutchevsky, e do advogado Bruno Bianco (ex-AGU), contratado para atuar nos precatórios.

O Estadão apurou que o encontro de Bianco com Gilmar ocorreu. Feitosa relatou a Vorcaro que “a conversa do Bianco ficou perfeita c o Gilmar”. Depois, enviou decisão do então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, que suspendia o pagamento do precatório da Usina Tabu.

Feitosa também mencionou jantar com Gilmar, possível encontro em Londres e reunião marcada com a irmã Guiomar. Ela afirmou que Vorcaro a procurou por intermédio do irmão, mas que recusou atuar porque ele não apresentou processos específicos.

O que dizem os envolvidos

Chiquinho Feitosa afirmou que não tinha contrato com o Banco Master, só com a Super Empreendimentos; que não sabia que Bianco atuava para Vorcaro; que não intermediou encontro de funcionários do banco com Gilmar; e que sugeriu retirar o nome do Master de um convite de evento “de forma despretensiosa”.

Bruno Bianco disse que atuou de forma independente, por seu escritório, em discussão jurídica de interesse de clientes; que não integrou o Master; e que a tese não foi acolhida pelo STF.

Gilmar Mendes não se pronunciou. O espaço permanece aberto.

Fonte: Diário do Poder

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