Você já parou para pensar por que os apresentadores de telejornal quase sempre vestem cores sólidas e discretas? Essa escolha não é por acaso. Ela segue uma regra interna criada há décadas na TV Globo, que ainda influencia o visual das bancadas hoje em dia.
A norma foi instituída em 1993 por ninguém menos que Boni, um dos maiores executivos da história da emissora. Ele dirigiu a Globo por anos e deixou um legado de padrões que vão além da programação. Sua ideia era simples: o foco deve estar totalmente na notícia, e não em quem a apresenta.
Em um vídeo recente, ele explicou o raciocínio por trás da decisão. Boni usou uma analogia curiosa do teatro para ilustrar seu ponto. Se um ator em uma cena medieval fizer sua espada arrastar no chão, o público só vai prestar atenção no barulho. Toda a força do texto se perderia. Na televisão, ele via os acessórios ou roupas chamativas como esses "ruídos" visuais.
O conceito do "vampiro" visual
Boni batizou esse efeito de distração de "vampiro". Um brinco muito grande, uma gravata de listras vibrantes ou uma estampa forte podem sugar a atenção do telespectador. O olhar é desviado do conteúdo principal, que é a informação jornalística. A mensagem que ele queria passar era clara: a notícia deve ser a protagonista absoluta.
O objetivo sempre foi preservar a credibilidade e a seriedade do jornalismo. Para Boni, elementos muito decorativos na imagem do apresentador "sujavam" a transmissão da informação. Ele acreditava que a função do comunicador é ser um canal transparente, quase invisível, para que o fato em si brilhe. Essa filosofia moldou uma geração de profissionais.
O memorando original de 1993 era bastante específico e severo. Ele proibia terminantemente ternos, blusas ou camisas com padronagens estampadas ou listradas. As gravatas também não podiam ter listras ou desenhos. Tudo para evitar qualquer padrão que chamasse mais atenção do que deveria.
As regras específicas do memorando
As joias e bijuterias também eram alvo de regras rígidas. Brincos, anéis e colares precisavam ser obrigatoriamente discretos. O tamanho, a cor e a forma não podiam ser exagerados. Uma regra interessante proibia itens que refletissem luz, evitando brilhos que pudessem distrair durante a gravação. O documento finalizava com um aviso forte: não seriam tolerados descuidos.
Apesar de ter sido criada nos anos 90, essa diretriz nunca foi oficialmente revogada. Ela segue como uma referência dentro da emissora, ainda que aplicada com muito mais flexibilidade hoje. O mundo da moda evoluiu, e um certo estilo pessoal dos apresentadores agora é aceito, mas sempre dentro de um limite.
O espírito da regra, no entanto, permanece vivo. Você dificilmente verá um apresentador de um jornal sério usando uma camisa floral berrante ou brincos que balançam exageradamente. O princípio de que a notícia vem primeiro ainda é um pilar. A norma se tornou um padrão tácito do jornalismo televisivo, mostrando como uma decisão interna pode definir uma estética por décadas.
Essa história revela como cada detalhe em uma emissora de TV é cuidadosamente pensado. Até a cor de uma gravata passa por um filtro que prioriza a clareza da comunicação. É um lembrete de que, no jornalismo, a forma sempre serve ao conteúdo. A busca por essa neutralidade visual visa construir confiança com quem está do outro lado da tela.
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