Aos dez anos, o menino George já sabia que o som das garrafas e latas no lixo podia significar o sustento da família. No Alto do Morro da Conceição, periferia do Recife, ele recolhia materiais recicláveis com cuidado, tentando não fazer barulho. Essa rotina difícil, porém, guardava uma surpresa: os ruídos do dia a dia estavam preparando seus ouvidos para a música.
Vinte e sete anos depois, George José Mendonça se tornou o percussionista Bob Brown. Os objetos que antes vendia para sobreviver viraram instrumentos em suas mãos. A transformação veio através da inspiração de um vizinho, o músico Lucas dos Prazeres, que viu naquela criança um talento a ser cultivado.
Lucas convidou o garoto para participar de um projeto no Centro Maria da Conceição. Lá, enchia garrafas com areia e pedrinhas, vedava e pintava, criando instrumentos de percussão. Essa aprendizagem pela prática marcou Bob para sempre. Hoje, com a agenda cheia, ele toca com grandes nomes da música brasileira.
De aluno a mestre: o ciclo que se renova
Lucas dos Prazeres carrega a tradição artística no sangue. Filho de artistas que se conheceram no Balé Popular do Recife, ele já sapateava no coco de roda aos três anos de idade. Crescer em um território de cultura viva, o Quilombo dos Prazeres, deu a ele uma formação única. Essa experiência moldou sua visão de que a arte é uma ferramenta poderosa para a cidadania.
No palco do Baile do Menino Deus, Lucas incorpora essas raízes. Seu personagem, um anjo, traz nos pés os guizos do cavalo marinho e a cadência do coco de roda. O diretor do espetáculo, Ronaldo Correia de Brito, deu a ele liberdade para fundir essas linguagens. Fora dos holofotes, seu trabalho é focado na comunidade.
Ele coordena o ponto de cultura Negras Raízes e a Orquestra dos Prazeres. O objetivo não é formar apenas músicos, mas cidadãos críticos. Mais de trezentos jovens já passaram por esses projetos. A metodologia é simples e profunda: aprender fazendo, valorizando a diversidade cultural do Nordeste que muitas escolas de música ignoram.
A arte que brota da comunidade
O impacto social desse trabalho é real. Muitos ex-alunos, como o próprio Bob Brown, hoje vivem da música. A visita do lendário Naná Vasconcelos ao quilombo foi um marco, dando visibilidade aos projetos. A doação de um terreno pela avó de Lucas permitiu que a escola comunitária florescesse. É um ciclo de generosidade que se renova.
Outro artista que decidiu investir no seu território é Ellan Barreto, o Okado do Canal. Nascido na Favela do Canal, no Arruda, ele criou o projeto Lado Beco. A iniciativa oferece atividades de hip hop para crianças e adolescentes. Para a estudante Wilyane, de onze anos, as aulas de break são a melhor parte da semana.
Ela já participa de batalhas com crianças de outras periferias. O pai, Wiliams, manobrista, vê com orgulho a filha se encantar pelas artes. Okado entende perfeitamente essa jornada de descoberta. Ele mesmo foi beneficiado por projetos comunitários na infância, o que despertou nele o desejo de retribuir.
O palco e a vida se misturam
O projeto de Okado vai além da dança. Ele conversa com a vizinhança sobre consciência ambiental. Os figurinos para os espetáculos dos alunos são confeccionados com materiais recicláveis, coletados pelas próprias crianças. Wilyane agora presta mais atenção ao cenário onde mora, unindo arte e cuidado com o lugar.
Essa conexão com as raízes também move o ator Arilson Lopes, que interpreta Mateus no auto de Natal. Sua atuação no palco dialoga com outro trabalho, menos visível: ele é um dos palhaços do grupo Doutores da Alegria em Pernambuco. Atuar em hospitais públicos, levando alegria para crianças enfermas, exige uma sensibilidade aguçada.
É um trabalho que demanda preparação emocional para cada “cena” imprevisível. Para Arilson, o Natal há vinte e dois anos é sinônimo do Baile do Menino Deus. A felicidade de ver as crianças cantando junto no palco ou reagindo no hospital é a mesma que move a cantora Sue Araújo, solista do espetáculo.
Ela começou no gospel e hoje mergulha na cultura regional. Em uma escola pública na comunidade da Mustardinha, Sue enxerga seu próprio passado. Como a primeira mulher de sua família a se graduar, ela usa a música para tornar as aulas mais interessantes. Seu desejo é que seus alunos também possam brilhar, encontrando na arte um caminho.
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