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Cuidador revela conflitos de Maradona com médico antes da morte: “Chegava a cuspir”

Os últimos dias de Diego Maradona foram de sofrimento físico e conflitos constantes com sua própria equipe de cuidados. Essa imagem difícil surge do depoimento do cuidador Aníbal Domínguez no tribunal de San Isidro. O julgamento investiga a responsabilidade dos profissionais que assistiam o ídolo. Maradona faleceu em novembro de 2020, aos sessenta anos, em sua casa. A causa oficial foi uma parada cardíaca ligada a um edema pulmonar. Ele se recuperava de uma cirurgia cerebral na época.

Domínguez trabalhou para o ex-jogador desde 2015. Ele ficou na residência onde Maradona se tratava até três dias antes da morte. O cuidador descreveu um estado de saúde muito frágil naquela semana final. Maradona apresentava inchaço pelo corpo e retenção de líquidos. Ele comia muito pouco e permanecia na cama quase o tempo todo.

O comportamento do ídolo também havia mudado drasticamente. Domínguez relatou que Maradona estava sempre de mau humor e tratava todos mal. Era uma batalha diária convencê-lo a realizar ações simples. Levantar da cama, tomar banho ou se alimentar viraram grandes desafios. A situação evidenciava a profunda crise pessoal e médica que ele enfrentava.

### A relação conflituosa com o médico pessoal

O depoimento destacou os sérios atritos entre Maradona e seu médico, Leopoldo Luque. Domínguez mantinha contato frequente com o profissional para relatar a piora do paciente. Ele chegou a pedir insistentemente que Luque fosse até a casa fazer uma avaliação. O médico, no entanto, demorava a atender esses chamados, segundo o relato apresentado no tribunal.

As discussões entre o paciente e seu médico eram constantes e intensas. Em vários momentos, Maradona chegava a expulsar Luque de sua residência. O cuidador contou que o ídolo até cuspia no médico durante as crises de raiva. Apesar das ofensas, Luque esperava um pouco e depois retornava para tentar conversar. A dinâmica era claramente desgastante e pouco profissional para uma recuperação.

A situação era ainda mais grave considerando o estado pós-operatório de Maradona. Domínguez questionou quem era realmente o responsável pelos cuidados naquela casa. Luque era oficialmente o médico e também se dizia amigo do paciente. A linha entre a amizade e a autoridade médica parecia totalmente apagada. Isso criou um ambiente sem regras claras para um tratamento adequado.

### A luta contra a abstinência e a falta de controle

Outro aspecto triste veio à tona com a reprodução de áudios no tribunal. Em uma gravação de 20 de novembro, Domínguez informa a Luque que Maradona estava “perdido e com tremores”. Os sintomas foram associados a um quadro de abstinência alcoólica. Mesmo nesse estado frágil, o ex-jogador pedia para sair de carro à noite. O cuidador afirmou que o acompanhava nessas saídas para evitar maiores conflitos.

As pessoas ao redor viviam com medo de contrariar o ídolo. Domínguez explicou que dizer “não” a Maradona podia desencadear uma explosão de raiva. Por isso, a estratégia era não entrar em conflito direto com ele. Essa postura, embora compreensível no momento, pode ter prejudicado decisões importantes sobre sua saúde. No fim, todos reconheciam que “Diego era o chefe”.

A incontinência era um dos problemas mais humilhantes enfrentados por Maradona. O cuidador testemunhou que ele não conseguia chegar ao banheiro a tempo. Ele fazia suas necessidades nas próprias roupas, o que aumentava seu desconforto e indignidade. Esse detalhe mostra o nível extremo de dependência e debilidade que ele vivia. Estava longe da imagem pública do astro invencível.

### O julgamento pela responsabilidade na morte

Sete profissionais de saúde estão no banco dos réus neste processo. Leopoldo Luque é considerado o principal acusado pela justiça argentina. Todos são processados por homicídio com dolo eventual. Essa acusação significa que eles podem ter previsto o risco de morte por suas ações ou omissões. O tribunal investiga se houve negligência no acompanhamento médico do ídolo.

Os sete acusados negam qualquer responsabilidade pelo falecimento de Maradona. Eles apresentarão suas defesas ao longo das audiências. O caso está sendo acompanhado de perto pela família do ex-jogador. Suas filhas, Dalma e Gianinna Maradona, estavam presentes durante o depoimento do cuidador. O julgamento continua na cidade de San Isidro, próxima a Buenos Aires.

O depoimento de Domínguez pintou um retrato cru dos últimos dias de uma lenda. Mostrou um homem frágil, com dores físicas e conflitos emocionais. Revelou também um sistema de cuidados desorganizado e permeado por relações pessoais conturbadas. O tribunal agora tem a difícil tarefa de separar a tragédia pessoal da possível responsabilidade profissional. A história final ainda está sendo escrita na justiça.

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