Já se passaram oito meses desde a COP30, a conferência climática da ONU que colocou Belém no centro das atenções mundiais. Enquanto o evento passou, os moradores do distrito de Outeiro seguem esperando por melhorias concretas. A ilha, que chegou a receber transatlânticos de luxo para hospedar delegados, parece ter voltado ao esquecimento de antes. A promessa de um legado positivo para a comunidade local ainda não saiu do papel.
A esperança era grande quando navios de cruzeiro ancoraram no porto local, uma solução para a falta de hotéis na capital. A cena contrastava fortemente com a realidade das praias próximas, que carecem de infraestrutura básica. Hoje, os grandes navios desapareceram e o movimento turístico não decolou. O distrito, a apenas oito quilômetros do centro de Belém, vive novamente sua rotina de abandono.
A reportagem visitou novamente as praias Grande e Brasília, que ficam ao lado do porto. O cenário permanece praticamente o mesmo de novembro do ano passado. Nas areias, não há sinal de visitantes ou do movimento esperado após um evento global. O que se vê é o descaso, com lixo e esgoto a céu aberto, convivendo com o movimento constante de navios de carga.
A realidade das praias esquecidas
Na praia Brasília, o bar Dedão funciona com mesas quase sempre vazias. O proprietário conta que, durante a COP30, não recebeu nenhum turista estrangeiro. Os únicos clientes eram moradores de Belém curiosos para ver os navios de luxo. Agora, nem esse movimento existe. Ele observa que, quando alguma embarcação aparece, fica distante, no meio do rio, e logo segue viagem.
Raimundo José, que também trabalha no local, aponta para o comércio parado. Ele nota que alguns moradores já começaram a vender seus terrenos, descrendo de uma revitalização. Os fins de semana, que poderiam ser movimentados, são de tranquilidade forçada. O porto e a praia, na confluência das baías do Guajará e do Marajó, parecem separados por um abismo de investimentos.
A Companhia Docas do Pará, gestora do porto, informa que o movimento de embarcações cresceu 35% após a conferência. Entre dezembro e junho, sessenta e cinco navios foram atendidos, contra quarenta e oito no mesmo período anterior. A empresa alega que a programação de cruzeiros é decidida pelo mercado com anos de antecedência. Ela afirma estar em negociações para incluir Outeiro em roteiros turísticos futuros.
Estrutura precária e ausência de saneamento
Na praia Grande, ao lado da Brasília, a situação é ainda mais crítica. O esgoto corre a céu aberto e é despejado diretamente na areia. Em um ato de protesto, uma tubulação abandonada foi pichada com o nome “COP30”. Raimundo Pereira, vendedor de coco há mais de trinta anos, conhece bem o problema. Ele relata que o vazamento existe há pelo menos cinco anos, sem qualquer intervenção da prefeitura.
Quando chove, a situação piora drasticamente. A água suja do esgoto se espalha pela praia, local onde as crianças costumam brincar. Pereira, que também é morador da ilha, é categórico: não viu nenhum legado da conferência. Ele cita ruas sem asfalto, outras cheias de buracos e a sensação de que Outeiro só é lembrada em reportagens sobre crimes ou poluição.
A estrada que dá acesso às duas praias é um retrato fiel desse abandono. Está esburacada e coberta de lixo, dificultando o acesso de moradores e possíveis visitantes. Paulo Almeida, dono da barraca São Jorge há vinte e cinco anos, culpa a falta de saneamento básico por afastar o turismo. Ele questiona qual turista teria coragem de tomar banho naquelas condições.
Promessas de revitalização sem prazo
A orla das praias é descrita como desorganizada, com barracas amontoadas e motocicletas passando em alta velocidade. Paulo Almeida a compara a uma favela, sem nenhuma estrutura capaz de receber visitantes com conforto e segurança. Para ele, é necessária uma padronização e um projeto urbano que incentive, de fato, a atividade turística na região.
A Prefeitura de Belém afirma que mantém serviços contínuos de zeladoria no distrito. Equipes atuariam na limpeza de praias, ruas e praças. A administração municipal lista uma série de investimentos prometidos para Outeiro. Entre eles está o projeto do Pistão da Água Boa, que se tornaria um novo parque linear para a cidade.
A gestão também menciona um plano de revitalização para a orla, mas não apresenta uma data para o início das obras. Além disso, promete investimentos estruturais em mais de cento e setenta ruas do distrito, que receberiam asfalto. Enquanto os projetos não saem do discurso oficial, moradores e comerciantes seguem convivendo com a infraestrutura precária. O contraste entre as promessas pós-COP30 e a realidade cotidiana permanece gritante na ilha.
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