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Mercado dá corte de juros como certo, mas vê fiscal como obstáculo para o BC

A expectativa está no ar. Nesta quarta-feira, o Banco Central deve anunciar mais uma redução na taxa básica de juros, a Selic. Seria a quarta queda seguida, levando a taxa para 14% ao ano. O clima entre os economistas é de quase certeza, após os últimos dados mostrarem uma inflação mais comportada e uma atividade econômica que perdeu força.

Essa combinação deu confiança ao mercado. A previsão de um corte de 0,25 ponto percentual se tornou unânime. O cenário atual até afastou um pouco o fantasma de que esta poderia ser a última redução antes de uma longa pausa. O caminho parece estar mais aberto.

No entanto, o otimismo tem seus limites. A convicção sobre os próximos passos do Copom, o comitê que decide os juros, é menor. Uma grande sombra paira sobre as futuras decisões: a questão fiscal. Como o governo administrará suas contas nos próximos anos é a principal dúvida que tira o sono dos analistas.

A lição da última reunião

Os especialistas também esperam um comunicado mais claro do Banco Central. Na reunião de junho, a linguagem usada pelo Copom gerou confusão e desconfiança. Para muitos, o texto criou um “espantalho” com simulações desnecessárias e não deixou clara a razão do corte.

Agora, todos estarão de olho para ver se o BC vai simplificar sua mensagem. Será crucial observar como o colegiado justifica a decisão de reduzir os juros mais uma vez. A expectativa é de um texto mais direto, que evite ruídos e transmita confiança ao mercado.

Outro ponto de atenção é uma mudança técnica. A partir desta reunião, o Copom passa a incluir o primeiro trimestre de 2028 em seus cálculos de inflação. É um horizonte mais longo, que exige ainda mais clareza na comunicação. Todos querem entender que cenário o BC está enxergando lá na frente.

Os riscos no horizonte

Apesar do cenário doméstico favorável, ameaças externas preocupam. A possibilidade de os Estados Unidos aumentarem seus juros é a maior delas. Um dólar mais forte pressiona a inflação no Brasil e pode forçar o Copom a interromper o ciclo de cortes, mesmo contra a vontade.

Além disso, vários países, incluindo o Brasil, ainda não encontraram um equilíbrio fiscal pós-pandemia. O mundo vive um momento de mais déficit, o que pode levar a uma reprecificação global dos juros. Esse movimento externo limita o espaço de manobra do Banco Central.

Internamente, o grande impulso fiscal e de crédito dado pelo governo parece ter vida curta. Mesmo com todo esse estímulo, a economia mostra sinais de desaceleração. Se a lenha está no fogo e o fogo não cresce, pode ser um alerta de problemas mais sérios pela frente.

A inflação e o consumo atual

Os números recentes trouxeram alívio. A queda nos preços de alimentos, como frutas e verduras, ajudou a desacelerar a inflação. O IPCA acumulado em doze meses até junho ficou em 4,64%, ainda acima da meta, mas em trajetória de melhora. O IPCA-15 de julho seguiu o mesmo caminho.

Esse comportamento justifica a decisão do BC de seguir com os cortes. A política monetária, vale lembrar, ainda é bastante restritiva. O que o Copom faz agora é apenas reduzir um pouco o grau de aperto, não promover um afrouxamento irresponsável.

No entanto, os riscos futuros persistem. A expectativa de um El Niño mais forte pode afetar as safras e pressionar os preços no próximo ano. O maior perigo, porém, ainda é o consumo elevado, impulsionado pelos gastos do governo. Manter esse ritmo por muito tempo é um desafio.

O que esperar daqui para frente

Diante desse quadro, muitos economistas projetam que os cortes devem continuar. Alguns veem a Selic terminando o ano em 13,75%. Outros são mais otimistas e apostam em 13,25%. A divergência mostra que, apesar do consenso sobre esta reunião, o futuro ainda é uma incógnita.

O que segura a inflação, por um lado, é a limitação do crédito. Famílias e empresas já estão bastante endividadas. Oferecer mais subsídios tem pouco efeito quando não há espaço para novas dívidas. Essa barreira natural ajuda a conter um surto de consumo e preços.

Por isso, a projeção é de uma inflação ainda mais controlada nos próximos meses. Alguns analistas esperam até um IPCA próximo de zero ou negativo em agosto, com o alívio das contas de luz. Se os dados confirmarem essa tendência, o caminho para novos cortes de juros ficará mais aberto.

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