A convenção que confirmou Lula como candidato à reeleição foi única em sua longa trajetória política. Diferente de todos os outros eventos do tipo, o clima não era de enfrentamento direto. O presidente se prepara para sua sétima corrida eleitoral em um cenário atípico, onde a ausência de um oponente à altura define o tom. Essa sensação dominou o Expo Center Norte, em São Paulo, no domingo.
A programação do evento deixou essa estratégia clara. Antes do discurso principal, houve apresentações artísticas breves. Elas funcionaram como um prelúdio para o momento aguardado por todos. A plateia estava claramente focada em ouvir o candidato, não em comparar propostas ou ataques.
Líderes petistas, como Edinho Silva e Fernando Haddad, também falaram de forma concisa. O vice-presidente Geraldo Alckmin igualmente se dirigiu aos presentes. Nenhuma dessas falas trouxe o nome de Flávio Bolsonaro, o principal adversário na disputa. As críticas ao governo anterior foram genéricas, sem citações diretas.
A estratégia do discurso
O presidente falou por mais de uma hora sem nomear nenhum concorrente. Ele abordou uma agenda positiva, focada em suas realizações e promessas. Temas como violência contra a mulher, proteção aos idosos e geração de empregos foram centrais. A soberania nacional também teve espaço, com menções a defesa e investimentos em fronteiras.
Lula enumerou obras do PAC e falou sobre inteligência artificial. Ele revisou os planos de seus governos anteriores e o que pretende fazer em um quarto mandato. A lista foi detalhada e apresentada sem pressa. Em momento algum surgiu o nome de Jair Bolsonaro ou de seus filhos.
A ausência de menções se estendeu a todos os outros candidatos à Presidência. O discurso ignorou completamente a polarização que marcou eleições recentes. A tática foi construir uma narrativa de continuidade e experiência, sem entrar em confrontos.
Os adversários invisíveis
Para um político que derrotou figuras como José Serra e o próprio Jair Bolsonaro, esta campanha é diferente. Seu principal desafio não parece ser um oponente específico. Lula precisa reconquistar eleitores descrentes e renovar seu vínculo com o país. A pergunta sobre o que um terceiro mandato pode oferecer é legítima.
Pela primeira vez, ele não precisa se defender de acusações graves durante a corrida. Também não enfrenta um adversário com carisma consolidado ou ampla competitividade. Seus verdadeiros obstáculos são outros. O cansaço natural de uma sétima candidatura e o desinteresse pela política pesam.
O antipetismo residual, que ainda garante cerca de 30% dos votos à direita, é outro fator. Mas para quem superou tantos desafios ao longo da vida, esses parecem obstáculos administráveis. A conquista de um quarto mandato presidencial, o chamado tetra, já não parece um objetivo inatingível. A campanha segue seu curso com um candidato que parece correr sozinho.
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