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Investigada por desvio no SUS é apontada como funcionária fantasma de líder do MDB

Você sabia que uma pessoa pode estar em três lugares ao mesmo tempo? Pelo menos é o que sugerem os indícios apontados pela Polícia Federal em uma recente investigação em Alagoas. O caso envolve uma suposta rede de desvios de recursos públicos e nomeações questionáveis no serviço público.

A história gira em torno de Luciana Pontes de Miranda, fisioterapeuta e esposa do ex-secretário estadual de Saúde de Alagoas, Gustavo Pontes de Miranda. Ela é lotada como secretária parlamentar no gabinete de um deputado federal desde 2019, com um salário bruto de cerca de nove mil reais. No entanto, a vida profissional dela parece se desdobrar em múltiplas frentes simultaneamente.

Enquanto constava como funcionária da Câmara em Brasília, Luciana também aparecia como a única fisioterapeuta de uma clínica privada em Alagoas, administrava uma empresa em Maceió e ainda cursava medicina em Olinda, Pernambuco. A distância entre essas cidades e a carga horária de cada atividade levantaram fortes suspeitas sobre a realidade desses vínculos trabalhistas.

A Polícia Federal pediu a anulação da nomeação dela no gabinete do deputado Isnaldo Bulhões, líder do MDB na Câmara. O pedido se estende a outros dois funcionários públicos citados nas investigações. A justificativa é a incompatibilidade de horários e a impossibilidade física de alguém acumular tantas funções em locais tão distantes.

A investigação, batizada de Operação Estágio IV, apura um suposto esquema de desvios milionários do SUS em Alagoas. O foco são contratos emergenciais da Secretaria de Saúde, que somam quase cem milhões de reais com duas empresas. O então secretário da pasta era justamente Gustavo Pontes de Miranda, marido de Luciana.

De acordo com a PF, uma das empresas envolvidas é a clínica NOT, especializada em ortopedia. Gustavo era sócio dessa clínica até um mês antes de ela ser contratada pela secretaria que ele comandava. A investigação aponta que ele nunca deixou de gerir o negócio, configurando um grave conflito de interesses.

O suposto prejuízo aos cofres públicos viria de ressarcimentos superfaturados pelo SUS à clínica. A PF identificou pagamentos por mais de dezoito milhões de reais em consultas e procedimentos que, segundo as investigações, simplesmente não aconteceram. A escala dos alegados atendimentos é um dos pontos mais surpreendentes do caso.

Em apenas um mês, a clínica declarou ter realizado 22,7 mil consultas de fisioterapia. Sendo Luciana a única profissional do setor, isso significaria 1.137 procedimentos por dia útil. Trabalhando das 7h às 19h, ela teria que fazer 95 atendimentos por hora, uma média de menos de um minuto por paciente. Um ritmo claramente impossível para qualquer profissional.

Diante desses números, os investigadores questionam como ela ainda teria tempo para as outras atividades. O curso de medicina em outro estado, o cargo no Congresso Nacional e a administração de uma empresa em Alagoas completam uma rotina que desafia a lógica. O caso se transforma em um quebra-cabeça de horários e deslocamentos.

O juiz federal responsável analisou um pedido para afastar os investigados de seus cargos. Porém, ele decidiu não conceder essa medida no momento, argumentando que a situação não estava diretamente ligada ao núcleo principal do inquérito. A decisão, no entanto, não significa o fim das apurações.

O magistrado determinou o envio de todas as informações ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Estado de Alagoas. Caberá a essas instituições, agora, avaliar as provas e promover as ações legais que julgarem necessárias dentro de suas competências. O processo segue seu curso na Justiça.

O governador de Alagoas, Paulo Dantas, determinou a criação de uma comissão especial para colaborar com as investigações. A ideia é garantir o fornecimento de todas as informações solicitadas pelos órgãos de controle. A nota oficial do governo reforça o respeito aos princípios do devido processo legal e da presunção de inocência.

Em nota divulgada após a operação, o ex-secretário Gustavo Miranda defendeu sua trajetória. Ele afirmou ter mais de trinta anos dedicados à medicina e à iniciativa privada, sem nunca ter sido citado em investigações criminais. Para ele, a história de sua vida é dedicada a salvar outras, tanto na esfera privada quanto na pública.

O deputado federal Isnaldo Bulhões, no gabinete do qual Luciana está lotada, não é investigado pela Polícia Federal. Ele foi procurado para se manifestar sobre o caso, assim como Luciana e a defesa de Gustavo Miranda. Até o momento, não houve retorno desses contatos feitos pela reportagem. O silêncio cerca os detalhes dessa trama.

Informações inacreditáveis como estas mostram a complexidade de alguns esquemas no serviço público. Elas revelam como a sobreposição de cargos e os conflitos de interesses podem passar despercebidos por um longo tempo. A investigação continua para esclarecer todos os fatos e apurar responsabilidades.

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