A região central de São Paulo vive um cenário curioso nos últimos meses. A conhecida cracolândia, que antes se concentrava na rua dos Protestantes, foi dispersada pela ação do governo. As ruas daquela área amanheceram vazias em maio, depois de meses de aglomeração visível. No entanto, um indicador de segurança teimou em seguir o caminho oposto ao esperado.
Os roubos e furtos de celulares, longe de diminuírem, continuaram aumentando nos distritos que eram o epicentro do problema. Entre maio e setembro, os distritos policiais do Campos Elíseos e Santa Cecília registraram quase 3.500 ocorrências desse tipo. Isso representa um crescimento de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Enquanto isso, na cidade como um todo, o aumento foi um pouco menor, ficando em 3%.
Esses números chamam a atenção porque vão contra a narrativa de uma melhora geral. As autoridades comemoraram a queda nos roubos totais na região, o que de fato aconteceu. Porém, quando o assunto é o celular, a história é outra. O furto, em especial, seguiu em alta, mostrando que o problema migrou ou se transformou, mas não desapareceu. A pergunta que fica é: por que o aparelho que está no nosso bolso segue sendo um alvo tão persistente?
A dispersão que trouxe mais movimento
Com a saída dos usuários de drogas da rua dos Protestantes, a vida no centro paulistano ganhou um novo ritmo. A estratégia do governo foi ampliar os serviços de atendimento para toda a região, não mais concentrados em um só ponto. O objetivo era justamente evitar nova aglomeração. Com ruas mais livres, o fluxo de pessoas comuns, trabalhadores e comerciantes, naturalmente aumentou.
Mais gente circulando significa, infelizmente, mais oportunidades para certos tipos de crime. Um tenente-coronel da Secretaria de Segurança Pública explica que metade dos furtos ocorre em locais fechados, como estações de metrô, ônibus e lojas. Com o comércio e o trânsito de pedestres retomando o fôlego, os criminosos encontraram um campo mais fértil para suas ações. A sensação de segurança que a dispersão trouxe pode, ironicamente, ter deixado as pessoas um pouco menos atentas.
Além disso, uma facção criminosa ganhou destaque nesse novo contexto: a chamada gangue da bicicleta. Especializada em abordagens rápidas e na subtração de celulares, o grupo é responsável por cerca de um terço desses casos no centro. Eles se beneficiam da agilidade para fugir e da alta demanda no mercado ilegal de aparelhos roubados. É um sistema que funciona independentemente da cena de uso de drogas.
Um crime especializado e organizado
Analistas de segurança apontam que o roubo de celulares é uma atividade profissionalizada. Não se trata mais apenas de um crime oportunista ligado ao consumo de drogas. Existem redes estruturadas que moram nas pensões da região, conhecem cada beco e têm acesso a todo um ecossistema de receptação. O aparelho roubado na Paulista à tarde pode estar desmontado e com suas partes à venda na internet à noite.
Essa especialização explica por que a dispersão da cracolândia não impactou os números. Os autores desses crimes são criminosos que atuam de forma organizada, não são necessariamente usuários em busca de recursos para o vício. Eles têm técnicas próprias e se adaptam às mudanças no ambiente. Enquanto houver quem compre celulares de origem duvidosa, essa economia clandestina seguirá aquecida.
As prefeituras e o governo estadual destacam o trabalho integrado e a queda em outros índices. É verdade que houve avanços em algumas frentes. Porém, o cidadão que tem seu celular furtado no trem ou roubado na rua vive a realidade desses números persistentes. A solução, portanto, parece demandar uma estratégia específica, que vise desmontar as redes de receptação e inibir a atuação desses grupos especializados. O centro pode estar mudando, mas alguns riscos pedem atenção redobrada.
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