Atriz Manuela Dias explica o motivo de seu personagem não ter assassinado Odete Roitman na novela “Vale Tudo”
Mais de nove meses após o último capítulo, uma decisão da autora ainda rende conversa. Manuela Dias, responsável pelo remake de “Vale Tudo”, optou por um final bem diferente para a vilã Odete Roitman. Enquanto na trama original de 1988 ela encontrava a morte, na nova versão a personagem simplesmente desaparece, forjando seu próprio falecimento. Essa escolha não foi ao acaso. Para a escritora, manter Odete viva era um gesto simbólico poderoso. Ela enxerga a personagem como uma representação de certas estruturas que são difíceis de derrubar. A elite e o poder instituído, em sua visão, têm uma capacidade incrível de se adaptar e persistir. Matar Odete seria como acreditar que essas forças simplesmente desaparecem. Manuela preferiu deixar a porta aberta, sugerindo que o jogo de poder continua, mesmo que fora dos nossos olhos. A reação do público não passou despercebida pela autora. Houve quem estranhasse a mudança em uma trama tão icônica. Manuela, no entanto, vê toda essa discussão com bons olhos. Para ela, a polêmica é um sinal de que as pessoas se importaram com a história. A indiferença seria um resultado muito pior. Essa efervescência mostra que a novela conseguiu propor um novo jogo, convidando o espectador a pensar além do desfecho tradicional do “bem vence o mal”. Foi uma aposta narrativa que gerou engajamento.
A escolha por um final aberto
A decisão de poupar Odete foi, acima de tudo, uma declaração de intenções. Manuela Dias queria evitar um fechamento clássico e previsível. Ela explica que a elite não morre; ela se transforma para se manter no controle. Esse pensamento a guiou ao criar a cena em que Odete, após ser baleada, some do mapa com a ajuda do fiel Freitas. A vilã não é punida com a morte, mas com o exílio e a perda de tudo que construiu de forma ilegítima. O poder que ela tanto ambicionava escorre pelos dedos, mas ela permanece viva para sentir essa derrota. Esse desfecho reflete uma visão mais contemporânea e menos maniqueísta. A justiça, quando existe, nem sempre é dramática ou definitiva. Às vezes, ela se parece mais com um longo e silencioso desmonte. A autora ofereceu ao público um leque de possibilidades para interpretar aquele fim, fugindo da simples catarse. Outra mudança crucial foi a revelação sobre Leonardo, o filho de Odete. Na versão original, ele havia morrido. No remake, Manuela teve um insight no meio da noite: e se ele estivesse vivo e escondido? Essa ideia não só deu um novo fôlego à trama principal, como foi um trunfo para a audiência. O segredo do “Leozinho” se tornou um motor de suspense, mantendo os espectadores intrigados e conectados com a história até os capítulos finais.
O impacto da vilã que sobreviveu
Na prática, o que vimos na TV foi um elaborado plano de fuga. Odete leva um tiro de Marco Aurélio, e todos acreditam em sua morte. Só nos últimos minutos da novela descobrimos a verdade. Flashbacks revelam que Freitas a socorreu, levando-a a uma clínica clandestina. Depois de se recuperar, ela deixa o país de helicóptero, deixando para trás um rastro de destruição. É um fim cinza, cheio de nuances. Ela não está feliz, mas está respirando. Esse destino é muito mais perturbador do que uma morte simples. Isso porque a ameaça permanece, ainda que distante. A sensação que fica é de que personagens como Odete são como ervas daninhas; você pode podar, mas a raiz está em outro lugar. O público, acostumado a finais mais redondos, teve que se contentar com essa ambiguidade. Foi um convite para olhar a vilã não como um monstro isolado, mas como um produto de um sistema. A sobrevivência de Odete é um comentário sobre a resiliência dessas estruturas de poder. Elas mudam de forma, de país, de nome, mas seguem existindo. A nova “Vale Tudo” não quis dar uma lição de moral, mas sim uma lição de realidade. E, ao fazer isso, garantiu que sua vilã continuaria sendo discutida muito tempo depois que as luzes do último capítulo se apagaram.
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