Os agricultores brasileiros estão enfrentando uma tempestade perfeita neste ano. Dois grandes problemas se uniram: o custo dos fertilizantes disparou e o clima promete ser imprevisível. Essa combinação pode resultar em menos comida na mesa e preços mais altos para itens básicos como arroz, café e pão.
A guerra no Oriente Médio complicou muito o comércio global de fertilizantes, produtos dos quais o Brasil é extremamente dependente. Enquanto isso, a previsão de um El Niño forte traz a ameaça de secas ou chuvas fora de hora nas principais regiões produtoras. São duas pressões simultâneas que atingem o bolso do produtor e, consequentemente, o do consumidor.
O cenário preocupa porque esses fatores podem levar os agricultores a usar menos adubo em suas lavouras. Com menos fertilizante, a tendência é que as plantas produzam menos. A queda na produtividade, somada aos possíveis estragos do clima, pode apertar o cinto de todo mundo na hora de fazer as compras do mês.
Por que o conflito no Oriente Médio afeta o nosso campo
O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes que utiliza, e uma rota marítima no Oriente Médio é crucial para esse abastecimento. Cerca de um terço de todo o fertilizante que viaja por mares passa pelo Estreito de Ormuz. Quando esse canal fica instável ou fecha por causa de conflitos, os preços disparam imediatamente no mercado internacional.
Produtos essenciais como ureia, amônia e enxofre são diretamente impactados. O enxofre, por exemplo, é matéria-prima para outros fertilizantes e sua falta já causou problemas concretos aqui. Uma grande fabricante mundial reduziu suas operações no Brasil recentemente justamente pela dificuldade de obter esse insumo.
Além da interrupção física, a tensão geopolítica faz com que grandes fornecedores priorizem seu mercado interno. China e Rússia, que juntas respondem por quase metade das importações brasileiras, têm adotado essa postura. O resultado é um produto mais caro, mais escasso e com entrega incerta para o agricultor brasileiro.
A difícil decisão do produtor na hora de adubar
Com os preços altos, muitos produtores pensam em reduzir a quantidade de fertilizante aplicada na lavoura. O problema é que essa economia inicial pode custar caro depois. Lavouras mal adubadas produzem menos e podem gerar grãos de qualidade inferior. No fim das contas, a conta chega para o consumidor em forma de preços mais altos.
A situação é ainda mais delicada para os pequenos e médios agricultores. Eles têm menos acesso a crédito e menos capacidade de estocar insumos. Para eles, a compra de fertilizante depende muito do dinheiro disponível na hora. Com os juros altos e o custo de produção subindo, a tentação de cortar esse gasto é grande.
Culturas como trigo, café, arroz e laranja são as mais vulneráveis nesse cenário. Elas tendem a ter uma rentabilidade menor por hectare comparadas à soja e ao milho. Quando o custo sobe, o produtor pode optar por adubar menos essas plantações para priorizar as mais lucrativas, o que afeta diretamente a oferta.
A dependência externa e o clima incerto
O Brasil compra do exterior 85% de todo o fertilizante que utiliza. Essa dependência nos deixa expostos a crises do outro lado do mundo, como estamos vendo agora. Mesmo com investimentos anunciados para aumentar a produção nacional, os efeitos dessas medidas ainda vão demorar anos para serem sentidos no campo.
Enquanto isso, o El Niño entra como um fator de ansiedade extra. O fenômeno altera completamente o padrão de chuvas no país. Para uma lavoura, tanto a falta quanto o excesso de água na hora errada podem ser devastadores. Uma boa chuva no momento certo pode ajudar a amenizar o impacto de uma adubação mais fraca, mas ninguém pode contar com isso agora.
O verdadeiro efeito dessa combinação de problemas só será percebido nas safras que estão sendo plantadas agora e serão colhidas no próximo ano. O agricultor toma suas decisões hoje com base em custos altos e uma previsão climática cheia de incertezas. O caminho até a nossa mesa ficou mais complicado.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.