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Durigan assume Fazenda sob pressão fiscal e herda desafios de Haddad

O novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, completou suas primeiras duas semanas no cargo. O cenário que ele encontrou é dos mais desafiadores, com as contas públicas sob forte pressão. Especialistas apontam que ele herda problemas estruturais da gestão anterior e ainda precisa lidar com demandas urgentes de um ano eleitoral.

A combinação exige um equilíbrio delicado entre controle de gastos e estímulo à economia. De um lado, existe a obrigação de seguir as regras de limite de despesas. Do outro, há uma cobrança por ações que aliviem o bolso do cidadão comum. Durigan precisa navegar por essas águas turbulentas desde o primeiro dia.

Seu desafio imediato é administrar um orçamento já bastante apertado. Para cumprir a lei de responsabilidade fiscal, ele anunciou um bloqueio de R$ 1,6 bilhão nas contas de 2026. O valor, no entanto, é considerado pequeno por muitos analistas diante do tamanho do buraco nas contas.

A corda bamba entre gastar e economizar

Logo no início do trabalho, o ministro mostrou que precisará lidar com duas frentes ao mesmo tempo. Enquanto anuncia cortes para respeitar o teto de gastos, também articula medidas que exigem dinheiro público. A ideia é conter a inflação e ao mesmo tempo aquecer o consumo das famílias.

Uma de suas primeiras ações foi confirmar um subsídio para o diesel importado. A medida deve custar cerca de R$ 3 bilhões, divididos entre União e estados. O objetivo é segurar o preço dos combustíveis nos postos, já que o barril de petróleo está caro no mercado internacional.

Paralelamente, a equipe econômica prepara um pacote para tentar reduzir a inadimplência. Dados recentes mostram que as dívidas já consomem mais de 27% da renda mensal das famílias. Se for só uma facilitação para renegociar crédito, o custo para os cofres públicos pode ser zero. Mas se envolver subsídios, a conta aparecerá.

As pressões eleitorais e as contas futuras

Em ano de campanha, a pressão por alívio imediato para o contribuinte só tende a aumentar. Uma discussão que volta à tona é a possível redução da chamada “taxa das blusinhas”. Esse imposto de 20% sobre compras internacionais abaixo de US$ 50 rendeu R$ 5 bilhões aos cofres públicos no ano passado.

Cortar essa arrecadação agora seria um risco para as metas fiscais. Por outro lado, o governo busca outras formas de agradar, como a automatização da declaração do Imposto de Renda. A medida simplifica a vida do contribuinte, mas não reduz a receita, pois é apenas uma mudança de processo.

Enquanto isso, o ministro propõe mudanças mais estruturais para tentar simplificar o sistema tributário. A questão é que reformas profundas demandam tempo e amplo debate no Congresso. O que o mercado observa, no curto prazo, é a capacidade do governo de cumprir suas próprias promessas de controle fiscal.

A herança difícil e a crise de credibilidade

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que os desafios de Durigan refletem limitações da gestão anterior. Para uma professora de Economia, o principal problema atual é a dificuldade do governo em bater as metas que ele mesmo criou. Isso gera uma desconfiança generalizada sobre o rumo da economia.

A dívida pública brasileira já saltou para 78,7% do tamanho total da nossa economia, o PIB. Gastos obrigatórios, como previdência e salários, consomem quase todo o orçamento. Sobra muito pouco para investimentos em infraestrutura, saúde e educação, o que trava o crescimento do país.

Existe, na avaliação dela, uma verdadeira crise de credibilidade fiscal. O país enfrenta um desequilíbrio crônico entre o que gasta com juros da dívida e o que aplica em áreas que geram retorno futuro. Sem confiança, fica difícil para qualquer ministro conseguir espaço para manobras.

Metas ambiciosas e crescimento estagnado

Outro economista avalia que parte dos problemas vem de metas fiscais excessivamente otimistas traçadas no começo do governo passado. A meta inicial era chegar a 2024 com déficit zero, o que depois precisou ser revisado. Mudanças de última hora no objetivo geram mal-estar nos investidores.

Para o mercado, seria mais compreensível estabelecer uma meta realista de pequeno déficit agora, com um plano claro para fechar a torneira depois. O importante, nessa visão, é demonstrar um compromisso sério e transparente com o equilíbrio das contas a médio prazo.

O aperto fiscal excessivo, no entanto, tem um efeito colateral perverso: limita os investimentos públicos. Eles estão em um patamar baixo, cerca de 2,3% do PIB, valor considerado insuficiente para impulsionar a economia. O país parece preso em um ciclo de crescimento irregular, que os especialistas chamam de “stop and go”.

O principal desafio do novo ministro

Diante desse quadro, a tarefa de Dario Durigan fica clara. Seu maior desafio será reconstruir a confiança na política econômica sem sacrificar o pouco crescimento que temos. Ele precisa convencer o mercado de que o governo é sério, e a população de que há cuidado com o dinheiro público.

Tudo isso com uma margem de manobra financeira extremamente curta e a constante pressão de um ano eleitoral. As medidas emergenciais, como o subsídio ao diesel, podem trazer um alívio imediato, mas não resolvem os problemas de fundo.

A equação entre ajuste fiscal e desenvolvimento econômico permanece em aberto. O novo ministro da Fazenda terá de encontrar seu próprio caminho para tentar resolvê-la, carregando o peso das expectativas e das heranças do passado.

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