Você sentiu o peso no bolso quando abastece o carro ou viu o preço do frete subir? Pois é, essa pressão no bolso do brasileiro tem um lado que pouca gente vê: o lucro de quem vende o combustível também aumentou, e muito. Mesmo com o governo tentando segurar os preços por causa da guerra que afeta o petróleo no mundo, as margens das distribuidoras e dos postos dispararam. Um estudo recente mostra que esse crescimento chegou a ser de mais de 70% em alguns casos desde o início do conflito.
As medidas do governo para aliviar a conta incluíram cortar impostos e aumentar a fiscalização. A ideia era que o benefício chegasse de fato ao consumidor final. No entanto, os números contam uma história diferente. Enquanto o custo do combustível subia centavos, o preço na bomba disparava. Uma grande distribuidora, por exemplo, foi multada por aumentar o litro em mais de um real quando seu custo tinha subido apenas três centavos.
Essa diferença absurda, de cerca de 35 vezes, foi vista como um forte indício de prática irregular. O caso escancara uma tendência que vai além da crise internacional. Os dados mostram que as margens de lucro no setor não param de crescer há anos, muito antes dos recentes conflitos geopolíticos. Isso significa que o problema é mais profundo e estrutural.
Um aumento que já vinha de longe
Os números são claros e vêm de fontes oficiais. Desde 2021, o lucro das empresas com a venda de combustíveis deu um salto impressionante. O diesel comum, usado em caminhões e veículos mais antigos, teve alta de quase 240% na margem. Já o diesel S-10 e a gasolina comum registraram aumentos acima de 90% e 110%, respectivamente. Esses percentuais se referem apenas à fatia do preço final que fica com as empresas.
Segundo especialistas, dois motivos principais explicam essa escalada. O primeiro foi a política de preços da Petrobras entre 2021 e 2022, que gerou uma volatilidade enorme no mercado. Nesse vai e vem de altas e baixas, as margens de distribuição e revenda conseguiram crescer sem chamar muita atenção. Mesmo quando os reajustes da petroleira diminuíram, as margens continuaram sua trajetória de alta.
O segundo fator crucial foi a privatização de empresas estatais do setor. Companhias como a BR Distribuidora e a Liquigás tinham um papel importante em estabilizar as margens de mercado. Com a venda para a iniciativa privada, esse poder de moderação se perdeu. O mercado ficou mais concentrado e com menos freios para conter os ganhos excessivos das distribuidoras.
Por que o petróleo mundial nos afeta tanto?
A guerra no Oriente Médio jogou o preço do barril de petróleo para acima de 100 dólares. A região é um ponto neuralgico do globo, controlando rotas marítimas vitais como o Estreito de Ormuz. Qualquer tensão lá se reflete no custo da commodity no mundo inteiro. Para o Brasil, que importa parte do combustível que consome, o impacto é direto e doloroso.
O aumento do diesel e da gasolina encarece tudo. O transporte de mercadorias fica mais caro, o que eleva o preço dos produtos nas prateleiras. O agronegócio, que depende de fertilizantes e de máquinas movidas a diesel, também sente o golpe. Até a nossa conta de luz pode subir, pois termelétricas são acionadas em períodos de seca e seu custo de operação está atrelado ao preço dos derivados.
Nos últimos dias, a alta média do diesel nos postos foi de quase 20%. E o cenário global continua instável, com novas tensões e ameaças a rotas de exportação. Enquanto isso, o brasileiro segue pagando a conta, tanto no tanque do carro quanto no preço de tudo que consome. A sensação é de que estamos reféns de uma conjuntura internacional complexa e de um mercado doméstico que encontrou uma forma de lucrar ainda mais com ela.
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