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Argentinos lotam praça de Maio e criticam Milei em ato relembrando 50 anos do golpe militar

As ruas ao redor da Casa Rosada, em Buenos Aires, voltaram a ser o cenário de uma memória viva e coletiva. Nesta terça-feira, multidões ocuparam o centro político da Argentina para marcar os 50 anos do golpe militar de 1976. O ato, conhecido como 24M, misturou luto, protesto e a busca incessante por justiça em um dia carregado de simbolismo.

A Praça de Maio, palco histórico das Mães e Avós, foi novamente tomada por retratos e nomes. Gerações se uniram, dos mais velhos que viveram a repressão aos jovens que carregam a história adiante. O ar ecoava canções de protesto e o número que nunca pode ser esquecido: trinta mil.

A data ganhou um peso especial sob o atual governo. Enquanto a população marchava, a Casa Rosada divulgava um material que relativiza o período ditatorial. Essa postura oficial criou um contraste agudo com as vozes na rua, que exigem verdade e reparação. A disputa pela memória segue no centro do debate nacional.

A multidão que escreve a história

Pais com crianças no colo, estudantes e idosos avançavam juntos pela Avenida de Maio. A movimentação era lenta, acompanhada pelo som grave dos tambores. Nos cafés lotados, as filas cresciam, e a atmosfera mesclava a comoção com um senso de comunidade resistente.

Cartazes com rostos desaparecidos se misturavam a bandeiras e referências culturais. Um manifestante erguia a imagem do herói de O Eternauta, história cujo autor e suas filhas foram vítimas da ditadura. A arte, assim, se tornava um lembrete poderoso das histórias interrompidas.

O momento mais silencioso veio com uma grande bandeira azul e branca, repleta de fotografias. O burburinho cessou, seguido por palmas e cantos. Era um protesto solene contra a impunidade, um recado claro de que o passado não será apagado.

A busca que nunca termina

Durante a ditadura, uma prática brutal foi sistemática: o roubo de bebês. Filhos de presos políticos eram apropriados e criados por outras famílias, com identidades falsas. As Avós da Praça de Maio transformaram essa dor em uma luta científica e obstinada.

Até hoje, elas conseguiram restituir a identidade de 140 netos. Sua batalha também levou à condenação de mais de cinquenta apropriadores. A presidente da associação, Estela de Carlotto, afirma que a busca continua por quase trezentas pessoas com suas origens alteradas.

Esse trabalho meticuloso de memória é um contraponto direto a discursos que tentam minimizar os crimes. Enquanto houver netos sem identidade, a ferida permanece aberta. A reconciliação, para essas famílias, só é possível com verdade e justiça.

A disputa pelo significado do passado

O governo atual insiste na chamada "teoria dos dois demônios", que equipara a violência do Estado à de grupos insurgentes. Essa visão, rejeitada por organismos de direitos humanos, busca implantar uma "memória completa" que muitos veem como uma distorção.

As organizações na praça foram enfáticas em rebater tentativas de questionar o número de trinta mil desaparecidos. Elas denunciam a postura oficial como um perigoso revisionismo histórico. Para eles, a memória é um território de luta, não de negociação.

O ato encerrou ligando aquele período sombrio a um modelo econômico imposto à força, que desmontou direitos. A reflexão final foi sobre os perigos do esquecimento. A multidão, aos poucos, foi se dispersando, mas a mensagem ficou ecoando nas pedras da praça.

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