O Supremo Tribunal Federal vive um momento de tensão interna que raramente se viu em sua história. A crise de credibilidade se aprofunda, enquanto os ministros tentam navegar um ano eleitoral cheio de polêmicas. No centro dessa tempestade está o presidente da corte, ministro Edson Fachin, que enfrenta um crescente sentimento de isolamento entre seus pares.
A percepção de que Fachin está isolado não é de um ou dois, mas de metade ou mais dos onze ministros. Eles avaliam que, no momento em que o tribunal mais precisa de união, seu presidente parece mais preocupado com a própria imagem. Essa postura, segundo relatos, acaba dando munição para os críticos do STF, especialmente no Congresso Nacional. A harmonia interna se tornou um desafio tão grande quanto as decisões jurídicas em si.
O estopim recente foi a investigação do Banco Master, que envolve menções a dois ministros no celular de um ex-banqueiro. Enquanto Alexandre de Moraes e Dias Toffoli lidam com os desgastes públicos, Fachin optou pelo silêncio. Essa discrição, vista por ele como prudência, é interpretada por uma ala do tribunal como falta de liderança. Alguns chegaram a sugerir um pronunciamento público para acalmar os ânimos, mas a ideia não foi adiante.
A raiz do desgaste
O distanciamento começou a ficar claro em fevereiro, durante uma reunião secreta. Fachin recebeu um relatório da Polícia Federal que pedia a suspeição do ministro Toffoli do caso Master. Na discussão interna, ele defendeu levar o tema a votação imediata, mas só conseguiu o apoio de Cármen Lúcia. A maioria rejeitou a medida, temendo expor ainda mais o tribunal. Essa derrota marcou o início de uma fratura interna difícil de reparar.
Desde então, decisões de outros ministros são lidas como recados indiretos. Quando Gilmar Mendes, Flávio Dino e Moraes atacaram os "penduricalhos" salariais do Judiciário, a mensagem subentendida era clara. Eles destacavam que os problemas éticos reais seriam outros, não simples palestras ou viagens. A ideia era contrapor a agenda de código de conduta que Fachin tenta emplacar para recuperar a imagem do STF.
O isolamento se reflete até na agenda institucional. Recentemente, o presidente do STF recebeu sozinho a visita do presidente da África do Sul. Também conduziu reuniões com outros tribunais sem a presença de colegas. Essas ausências são vistas como sinais eloquentes do clima que se instalou. Para parte dos ministros, um líder deveria presumir a fé pública dos colegas citados no caso Master, em vez de agir com excessiva cautela.
Diálogo superficial e caminhos adiante
Em conversas privadas, Fachin nega sentir-se apartado. Ele mantém diálogos periódicos com todos, mapeando desafios como a prisão do ex-banqueiro Vorcaro e o inquérito das fake news. No entanto, ministros relatam que essas conversas são genéricas e superficiais. O presidente reconhece a tensão, mas não detalha planos concretos para resolvê-la, deixando seus pares sem uma direção clara.
Sua personalidade discreta e a defesa intransigente da moralidade são marcas de sua carreira. Fachin acredita que a discrição é uma virtude e que a autoridade do tribunal depende disso. Em discursos públicos, ele tem pregado a autocontenção do STF e o respeito à separação entre política e Justiça. Para ele, sem a confiança da população, não há legitimidade que se sustente.
O caso Master seguiu seu curso, com Toffoli se declarando suspeito por "foro íntimo" e a relatoria passando para André Mendonça. Enquanto isso, a corte tenta seguir com sua pauta normal em um ano que será longo e desgastante. O grande desafio agora é administrar as divergências internas sem que elas paralisem a instituição. O equilíbrio é frágil, e o caminho para recuperar a unidade parece ser longo e cheio de obstáculos.
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