Uma operação da Polícia Civil encerrou nesta sexta-feira um centro de treinamento criminoso escondido no coração de Mato Grosso. O local funcionava dentro de uma terra indígena, em uma área de difícil acesso perto do rio São Lourenço. A investigação, que durou quase um ano, revelou uma estrutura clandestina usada para instruir jovens do Comando Vermelho.
Os treinamentos preparavam adolescentes em técnicas de combate, sobrevivência na selva e manejo de armas pesadas. Tudo isso faz parte da violenta disputa pelo controle de rotas de drogas na fronteira com a Bolívia. A polícia acredita que os criminosos coagiam a comunidade indígena local a tolerar suas atividades na região.
A investigação começou a partir de denúncias sobre tráfico de drogas usando o curso do rio. Os policiais mapearam um esquema que transportava entorpecentes por vias fluviais para depois distribuí-los. Esse foi o fio que os levou até a descoberta do campo de treinamento, durante a chamada Operação Argos.
A estrutura do esquema criminoso
As drogas chegavam a Mato Grosso vindas do estado vizinho, Mato Grosso do Sul, por embarcações. Um dos investigados, conhecido como Pescador, era o responsável por receber a carga no rio São Lourenço. O material era descarregado perto da comunidade indígena e seguia por estrada em uma caminhonete.
A mercadoria era armazenada em outra casa, dentro da mesma área indígena, mas mais afastada. Nesse ponto, um suspeito apelidado de Corola ou Fininho cuidava do estoque e fazia a redistribuição. Os compradores buscavam as drogas tanto de barco quanto por terra, mostrando a logística bem organizada do grupo.
Foi ao investigar mais a fundo esses dois homens que a polícia descobriu sua outra função. Eles também atuavam como instrutores de um curso clandestino para membros da facção. O treinamento ia muito além do tráfico, preparando pessoal para o confronto armado.
O treinamento paramilitar clandestino
O curso era dividido em etapas, começando com instrução básica. Os participantes aprendiam a montar e desmontar armas, além de posicionar o corpo para atirar, tudo sem munição. Essa fase, chamada de tiro a seco, acontecia em um local inicial antes do treinamento real.
Depois, os recrutas eram levados de barco até uma ilha isolada no rio São Lourenço. Lá, realizavam exercícios de disparo com munição real. O barulho dos tiros era um risco, por isso escolhiam pontos distantes para não alertar os moradores da aldeia indígena.
O currículo ainda incluía técnicas avançadas de sobrevivência na mata. O objetivo era ensinar os integrantes a se esconder por longos períodos após possíveis confrontos. A estrutura lembrava a de treinamentos oficiais de forças de segurança, mas com finalidade criminosa.
O arsenal e as dificuldades da operação
O armamento usado nos treinamentos era pesado e de uso restrito. A polícia identificou a presença de fuzis dos calibres .556 e .762, pistolas .40 e 9 mm, além de metralhadoras. Havia até uma arma de calibre .30, montada em um tripé para maior estabilidade.
Parte dessas armas ficava escondida em compartimentos subterrâneos perto da casa de um dos investigados. Relatos indicam que pelo menos nove armas diferentes circulavam no local em menos de um mês. As informações sobre o curso vieram de depoimentos de presos em outras cidades do estado.
A operação de desmantelamento contou com apoio da Polícia Federal para acessar a terra indígena. Agentes cumpriram mandados de busca sem encontrar resistência. Um sobrevoo de helicóptero ajudou a identificar a área exata dos disparos, mas o desembarque foi impossível.
A região estava completamente alagada e com a mata muito fechada, o que impediu uma busca detalhada no local. A geografia difícil, que antes servia de proteção para os criminosos, também complicou o trabalho final das autoridades. A investigação, no entanto, segue em andamento para identificar todos os envolvidos.
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