Neste domingo, mulheres de todas as regiões do país ocuparam as ruas para marcar o Dia Internacional da Mulher. Os protestos, que aconteceram em diversas cidades, tinham uma pauta clara e urgente: o fim da violência de gênero. Além disso, as manifestantes reforçaram a defesa da democracia e a luta por melhores condições de vida.
A mobilização nacional foi construída por mais de 300 organizações de diferentes causas sociais e sindicais. Juntas, elas representam a voz plural das mulheres trabalhadoras da cidade, do campo, das florestas e das águas. O movimento dá visibilidade às realidades de mulheres negras, quilombolas, indígenas, LGBTQIAP+, com deficiência e mães solo.
Na última quinta-feira, essa articulação entregou uma carta-manifesto à ministra das Mulheres, Márcia Lopes. O documento detalha as prioridades para os próximos anos. A reivindicação central é por mais recursos para políticas públicas efetivas de combate à violência.
A luta contra o feminicídio
Os números mostram a gravidade do cenário. Em 2025, o Brasil registrou 1.565 feminicídios, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A maioria desses crimes aconteceu em cidades com menos de 100 mil habitantes. Nessas localidades menores, a infraestrutura de proteção é precária.
Apenas 5% desses municípios têm uma delegacia da Mulher. E somente 3% contam com uma Casa de Abrigo para acolher vítimas em risco. São Paulo foi o estado com o maior número absoluto de casos, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro. Quando se observa a taxa por habitante, Acre, Mato Grosso e Rondônia lideram esse triste ranking.
O perfil das vítimas revela um padrão. Metade tinha entre 30 e 49 anos, enquanto 30% estavam na faixa dos 18 aos 29 anos. Esses dados evidenciam que a violência fatal atinge principalmente mulheres em idade produtiva. São mães, trabalhadoras e provedoras que têm suas vidas interrompidas brutalmente.
Protestos de norte a sul
Em Santa Catarina, os atos aconteceram em cinco cidades. O estado registrou 52 feminicídios no último ano. Um dado que chama atenção são as 30 mil medidas protetivas solicitadas, um sinal claro do alto nível de ameaça que as mulheres catarinenses enfrentam. Em Florianópolis, a marcha percorreu o centro da capital.
No Rio Grande do Sul, a manifestação em Porto Alegre partiu da Praça dos Açorianos. A Defensoria Pública do estado realizou mais de 25 mil atendimentos a mulheres em situação de violência apenas no último ano. Esse volume de notificações ilustra a dimensão do problema que vai muito além dos casos fatais.
No Rio de Janeiro, o protesto ocorreu em um contexto de forte comoção. A prisão de quatro acusados de um estupro coletivo e a denúncia de abuso contra uma criança de 7 anos em uma escola municipal inflamaram o debate público. A dor de casos recentes deu ainda mais força aos gritos por justiça.
Vozes por direitos e cuidado
Em Salvador, o ato saiu do Morro do Cristo em direção à orla. Na Bahia, 103 mulheres foram assassinadas em 2025, sendo mais de 80% delas negras, jovens e trabalhadoras. A violência, portanto, tem cor, idade e classe social definidas, atingindo com mais força as populações historicamente vulnerabilizadas.
Em São Paulo, milhares desafiaram a forte chuva da tarde e se reuniram na Avenida Paulista. Com sombrinhas e cartazes, marcharam até a Praça Roosevelt. Os movimentos presentes reforçaram a defesa de uma vida livre de violência, mas também de outros direitos fundamentais.
A carta entregue ao governo federal vai além da denúncia. Ela propõe soluções, como a implementação da Política Nacional do Cuidado. A proposta visa reconhecer e profissionalizar atividades de cuidado, trabalho que ainda recai majoritariamente sobre as mulheres de forma não remunerada.
Um grito unificado por vida
A pauta também inclui a defesa dos direitos reprodutivos, com foco no acesso ao aborto seguro e humanizado. A saúde pública integral para as mulheres é entendida como um pilar fundamental para a autonomia. Sem ela, não há possibilidade de uma vida plena e livre.
Nos atos do Norte e Centro-Oeste, em cidades como Brasília, Cuiabá e Belém, os cartazes traziam nomes de vítimas de feminicídio. As frases lembravam que não é normal sentir medo dentro de casa. Em Mato Grosso, as manifestantes foram diretas: flores não são suficientes, as mulheres querem vida.
A mobilização deste oito de março deixou claro que a luta é por existência digna. É pelo direito de viver sem medo, de trabalhar, de cuidar e de ser cuidada. É, acima de tudo, por um futuro onde a violência não seja mais uma sombra constante no dia a dia de milhões de brasileiras.
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